segunda-feira, 21 de abril de 2014

A METAMORFOSE, Franz Kafka


"Ao despertar de um sonho inquieto, certa manhã, Gregor descobriu que se havia transformado num gigantesco inseto." 
Essa é a primeira frase de A metamorfose, e não fosse a seriedade com que a história prossegue, incluindo a aparente normalidade dos membros da família diante do absurdo fato, eu podia jurar que começava uma ficção científica com monstros e alienígenas talvez..  

Desde sempre eu sabia sobre esse livro do Franz Kafka, tal como alguém que nunca leu Dom Casmurro mas sabe da dúvida sobre a traição de Capitu. Eis que agora, em março, li A metamorfose. Ou melhor, ouvi (audiobook).
* MAS o que era aquilo? Que texto mais maluco! 
Não sei dizer com firmeza se gostei ou não gostei. Apenas concluo que é uma leitura imprescindível para conhecer Kafka. (De sua obra, eu só tinha lido O processo durante a faculdade de Direito, e ainda quero ler Carta ao Pai).

Gregor é um caixeiro-viajante que trabalha muito pra tentar pagar as dívidas da família. Está cansado e estressado, tem um chefe mala, e se sente frustrado pela vidinha que leva. Num belo dia, ao despertar, percebe a metamorfose...

O inseto em que Gregor se transforma é repugnante e causa repugnância. Não é dito, mas toda a descrição leva a crer que é uma barata, e mesmo assim ele continua um ser pensante como se humano fosse. 

Na primeira parte do livro, o chefe vai até sua casa e faz algumas reclamações do seu funcionário... mas Gregor não consegue sair do quarto por sua nova estrutura física.. Após grande esforço consegue abrir a porta, mas todos se apavoram ao vê-lo... e ele não entende nada do que falam, soando apenas como murmúrios incompreensíveis. Seu pai o empurra de volta aos aposentos.
Na segunda parte, sua irmã deixa comida numa tijela... Acontecia de toda vez alguém entrar no quarto, Gregor se esconder. Passava seu tempo escutando a família reclamando dele, e se distraía, então, perambulando pelas paredes e teto do quarto.
Aos poucos a família vai deixando esse 'problema' de lado e o quarto do inseto vai virando depósito de lixo. Certa feita, Gregor sai por uma fresta da porta e aparece na sala para ouvir a irmã tocar violino. Surpreendido também pelos inquilinos que observavam a cena, Gregor retorna rápido ao quarto. 
No dia seguinte é encontrado morto e a família não dá muita atenção pra sua ausência...

A complexidade do livro anda junto com as interpretações possíveis. O ponto central é a solidão e o não reconhecimento, que ora ou outra acometem os seres em sociedade. O livro é curto mas oferece inúmeras reflexões. 
Para enriquecer a reflexão, me permito citar trecho de um elucidativo ensaio sobre a obra de Kafka, de Vilto Reis, publicado no site HomoLiteratus em outubro de 2013:


Estátua de Kafka, em Praga
O “problema” desta obra, sendo o autor considerado realista, é que ela praticamente impossibilita a visão alegórica. Como disse Walter Benjamim: “O mundo de Kafka se caracteriza pela mais precisa das deformações”. Se por um lado a perspectiva apresentada parece fantasiosa, por outro a narração é concisa, como a mais comum normalidade. O início avassalador de A Metamorfose – “Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso” – já é por si só uma inversão, pois é como se a história começasse pelo clímax; o ponto alto da narrativa está no começo. Não é como se alguém normal, dormindo, entrasse num pesadelo, mas sim como se a pessoa acordasse ela mesmo “pesadelesca”. Modesto Carone, no livro Lições de Kafka, afirma que “…a metamorfose não está aí como um disparate, mas como uma licença poética transformada em fato”. A frieza da narração transforma o fato numa situação sombria por ser real.
O homem normal, escravo de sua própria vida, de sua condição social, de sua família, vê-se de repente suprimido numa monstruosidade incompreendida. Pode haver solidão maior que esta? Aqui o que está em voga não é a solidão de estar distante dos seus, mas sim aquela de estar perto de quem deveria se importar consigo, mas ser repelido como um monstro. Modesto Carone, no livro já citado, ainda complementa: “ele se comporta como um homem que ainda existe, mas que já não pode ser visto como sendo ele mesmo, e nessa medida é empurrado para o isolamento e a solidão (para acabar na exclusão)”. (...) Distante, solitário, nulo, este é o personagem kafkaniano, sentindo-se um inseto (ou mesmo sendo um); ele precisa lidar com o estar entre muitas pessoas, mas mesmo assim estar só. É como todos nós nos sentimos num momento de carência, de exaustão emocional, em que gostaríamos de ter alguém por perto, mas não temos; mesmo numa volta para casa, num transporte público, estando suprimidos por uma multidão de outros trabalhadores, sentimo-nos sozinhos, pois na verdade estamos só, como somente em nosso século poderíamos estar. Sendo quase centenário, Kafka ainda consegue ser moderno. Nossa época é o tempo da solidão, somos contemporâneos da depressão massificada, como doença comum; o que vem a calhar com a afirmação de Theodor Adorno: “Os protocolos herméticos de Kafka revelam a gênese social da esquizofrenia”. 
Alegórico ou não, A metamorfose propõe uma metamorfose do nosso pensamento, propões um despertar pra certa letargia que pode acometer as pessoas. Precisamos enxergar mais e melhor.

Um beijo bom, Camilla.

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