segunda-feira, 31 de março de 2014

A DESUMANIZAÇÃO, Valter Hugo Mãe

238 páginas naquele papel grossinho mas leve
Pra ler Valter Hugo Mãe é preciso usar cilindro e mergulhar! Bucear! To dive! 
A simples espiada com snorkel será turva e incompleta. 

Não lemos VHM com os olhos, mas com o coração. É puramente o coração que capta seu texto. E não estou falando apenas de entrelinhas. Há qualquer coisa de mágico na forma como ele vê o mundo e, mais peculiar ainda, na forma como expressa tudo isso por meio da linguagem.

A desumanização foi publicado em setembro de 2013 e chegou nas minhas mãos em dezembro, por meio do amigo Henrique Azevedo, que comprou lá em Portugal e me trouxe sob encomenda!! (Só vai ser lançado esse semestre no Brasil). Acho que isso define minha predileção pela obra do autor e afoiteza em ler tudo o que ele publica! 
*
Ambientada nos fiordes islandeses (Fiorde é uma grande entrada de mar entre altas montanhas rochosas. by Wiki), a história é narrada por Halla, uma menina de 11 anos que perdeu sua irmã gêmea Sigridur e passa a viver pela metade com o peso de duas almas. A solidão espiritual é pior que a física, e a julgar pelos demais personagens daquela localidade sentir-se só não era privilégio dos enlutados. [Novamente, VHM explora essa inesgotável temática! (Vide resenha de O filho de mil homens)].
Acontece que as tragédias humanas retratadas podem acontecer (e acontecem) em qualquer lugar onde existam humanos (ou desumanos)!!

Aprender a solidão não é senão capacitarmo-nos do que representamos entre todos. Talvez não representemos nada, o que me parece impossível. Qualquer rasto que deixemos no eremitério é uma conversa com os homens que, cinco minutos ou cinco mil anos depois, nos descubram a presença. Dificilmente se concebe um homem não motivado para deixar rasto e, desse modo, conversar. E se houver um eremita assim, casmurro, seguro que terá pelo chão e pelo céu uma ideia de companhia, espiritualizando cada elemento como quem procura portas para chegar à conversa com deus. Estamos sempre à conversa com deus. A solidão não existe. É uma ficção das nossas cabeças. p. 21 

Neste, que é seu sexto romance, VHM fala sobre a dor, a ausência, o viver sem sentido ou buscando sentidos. As reflexões são poesia pura e em todas as páginas tem algo que toca a gente. Em VHM é impossível encontrar respostas para as questões que ele mesmo propõe. Durante a leitura senti tanto apertos quanto confortos. E toda tentativa de preencher os vazios foi frustrada por um novo parágrafo de escrita íntima e visceral, todavia delicada e poética. A simbologia que ele usa pra definir ideias é arrebatadora pra não dizer desoladora. 

"Mais tarde, também eu arrancarei o coração do peito para o secar como um trapo e usar limpando apenas as coisas mais estúpidas".

Apesar da tristeza dos fatos, algo de profundamente belo é perceptível nesse livro. E essa beleza só será absorvida quando, tal como em museus, a gente parar minutos à sua frente e deixar que a obra de arte nos rapte/capte. A meu ver, querido leitor, esse livro não é menos que uma obra de arte!! <3

A beleza da lagoa é sempre alguém. Porque a beleza da lagoa só acontece porque a posso partilhar. Se não houver ninguém, nem a necessidade de encontrar a beleza existe nem a lagoa será bela. A beleza é sempre alguém, no sentido em que ela se concretiza apenas pela expectativa da reunião com o outro. p. 42

Recomendo: pra quem gosta de ler coisas lindas e profundas, apesar de angustiantes, cuja complexidade à primeira vista deve ser tida como estímulo. =) 
Não recomendo: pra leitor que curte histórias de amores correspondidos, esperança, piqueniques com toalha xadrez e suquinho de frutas. Depois não diz que não avisei. 

Senti-me muito feia por andar ainda atrás da beleza. Era tão diferente de fugir. O meu pai desentristeceu-me. Prometeu que leríamos um livro. Os livros eram ladrões. Roubavam-nos do que nos acontecia. Mas também era generosos. Ofereciam-nos o que não nos acontecia. p. 63

p.s.:Até maio de 2014 chega no Brasil pela Editora Cosac Naify (depois que eu ver essa edição faço um update na resenha)
outro p.s.:Desculpa, mas minha edição da Porto Editora é a coisa mais linda do mundo.
aquarelas das primeiras páginas (vou enquadrar!)

capa linda e brilhante




















Um beijo bom, Camilla.

4 comentários:

Bruna Cipriani Luzzi disse...

Preciso ler esse Valter Hugo Mãe, parece inspirador!

Li com o coração Khaled Hosseini, autor do Caçador de Pipas. O segundo livro dele, A Cidade do Sol, é muito lindo!

Você lê e resenha rápido demais, não dá para acompanhar! eheheh

Bjãooo

Camilla disse...

Brunaaaaa!! Please, amiga! Leia VHM pra gente poder trocar uns coments! hihihi Só acho que nenhum livro dele virou ou vai virar filme hehehe

Bjo bjo

raquel disse...

Nossa foi minha primeira experiência também eu digo que fui lançada no livro e não desgrudei para mim foi como um poema em prosa. Pictórico também. Lindo demais...

ps:: comprei o meu pela cosac e não tem essas aquarelas lindas juro que me deu pena se tivesse visto teria comprado!

Camilla Caetano disse...

VHM é demais e não canso de recomendar!! Prosa poética, bem como disseste!!
Lindo né?? Esta edição portuguesa que tenho é um primor. Vale a pena encomendar um dia!

Obrigadinha pela visita e coment. Fique bem!!
Cami

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