quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O FILHO DE MIL HOMENS, Valter Hugo Mãe

Eu poderia não escrever minhas impressões sobre o livro e simplesmente dizer: leiam!! Tenho certeza que os amigos que confiam em mim (e/ou no meu gosto) iriam considerar essa indicação mesmo às escuras. Mas ficaria um vácuo para a outra porcentagem de leitores que espera bons argumentos pra dar crédito a novos autores, no caso de ainda não conhecer o angolano radicado em Portugal, Valter Hugo Mãe.
VHM deixou de ser novo quando li A máquina de fazer espanhóis, onde trata e retrata a terceira idade com inafastável realismo, sem descuidar da sensibilidade merecida. Tem post aqui.
O filho de mil homens morava na minha estante há alguns meses e escolheu o mês de janeiro pra me encantar. Esse livro fala da solidão, ou melhor, daquilo que se coloca no coração pra fazê-la mais discreta, ou melhor, da tentativa de dar mais sentido pra nossa existência única.

Crisóstomo é um pescador solteiro de 40 anos de idade que deseja muito ter um filho. No povoado, uma anã perece ao dar à luz a um menino chamado Camilo, que o velho Alfredo acaba adotando. A jovem Isaura é deflorada e o pai pensava que a honra da família tinha sido morta e sua mãe Maria era só repúdio. Antonino, filho de Matilde, apesar de maricas se engraçou por Isaura e até casaram. Rosinha, a caseira de Matilde, tinha uma filha de sete anos e suspirava pelo velho Rodrigues, mas foi o viúvo Gemúndio que a levou ao altar. Depois, a sorte triste de Rosinha fez com que sua filha Mininha ficasse ao amparo de Matilde. E tudo o mais que acontece é o cruzamento de todas essa vidas, a costura das fraquezas de uns no amor de outros. Singelas personagens ficcionais, mas tão reais quanto a saudade que senti ao fechar o livro. 

Ainda que cada capítulo possa ser lido individualmente, como contos, ao final o resultado se mostra orgânico e coeso como a sensação de selar com cola o quebra-cabeça prontinho; ou de estender a cama com uma recém costurada colcha de patchwork. A naturalidade com que os espaços (e corações) vão sendo preenchidos dá ritmo e verdade pra história.
E vontade de que o livro dure pra sempre. 

A narrativa é de uma cadência maravilhosa que até acelera a leitura. Mas eu me demorava nos capítulos pra que não acabasse tão cedo...

Foi uma leitura tão prazerosa que mereceu imediata releitura no afã de eternizá-la.

Um (suspiro e) beijo bom,
Camilla.

6 comentários:

Bruna disse...

Inspirador!

Carla C. disse...

"a máquina de fazer espanhóis" é um livro lindo, né? como os escritores portugueses, de um modo geral, têm um domínio da língua, né? parecem brincar com as palavras. Quero ler mais coisas do VHM.
Beijo!

Lu Tazinazzo disse...

Cami, a literatura portuguesa não funciona comigo, então, confesso que, quando surgem novos autores assim, fico com um medo meio infantil de tentar. Um amigo também me indicou VHM, e talvez eu arrisque sua obra daqui há um tempo, mas não me sinto no momento ainda.

Beijos!

Isa Vichi disse...

Ai, ai, ai... tbm não li a resenha pq quero muito ler!! A Máquina de Fazer Espanhóis será minha próxima leitura e já estou ansiosa! Beijinho da Isa - LidoLendo.

Camilla Caetano disse...

Isa!!!
Pode ler sem susto, porque não dou spoiler nas minhas considerações...
mas se caso dou eu aviso antes!
TAMBÉM tomo cuidado de não ler resenhas, nem orelha, nem sinopses!
Sou que nem vc: costumo comprar pelo título e/ou pela capa!

E podes ficar ansiosa com A MÁQUINA.. é bem profundo!!

Obs: sou inscrita no teu canal e vejo (revejo) SEMPRE os vídeos!
bjao

Camilla Caetano disse...

Carla!! Faça isso!! Ando encantada pela escrita do VHM. Sempre bom descobrir novos autores favoritos! bjao, Cami

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