quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

SEIS PASSEIOS PELOS BOSQUES DA FICÇÃO, Umberto Eco

"O que é o texto de ficção? Em que medida ele difere da verdade histórica? E o que ocorre quando o leitor mistura os papéis e considera como reais personagens fictícias ou vice-versa? Estas e outras questões cruciais da arte narrativa são discutidas, de forma acessível e bem-humorada, por Umberto Eco, nestas seis conferências que realizou (...)." (contracapa)

Eis que uma leitura mais ´´técnica`` tomou minha atenção nesse final de ano! Seis passeios pelos bosques da ficção reúne conferências que Umberto Eco proferiu em 1973 na Universidade Harvard.
Já aviso que não é uma leitura comum, por tratar-se de metalinguagem, mas que reputo essencial para leitores mais adiantados que queiram refletir sobre o ato da leitura em si! Nestes ensaios Umberto Eco investiga aspectos filosóficos da construção até a interpretação de textos narrativos passando pela análise da estrutura da obra ficcional e os conceitos de leitor empírico e leitor-modelo. Aborda o tempo da história, do discurso e da leitura, diferenciando os conceitos de história, enredo e discurso. Esse livro é inteligente, interessante e didático, mas requer uma leitura atenta e estudiosa, digamos assim. São 160 páginas de conclusões incríveis e bem-humoradas. Acho que vale a pena para leitores mais adiantados e estudiosos da linguagem.

Me permitam colocar uns trechinhos dos ensaios/capítulos (porque a vontade era de postar o livro inteiro de tão perfeito heheh):

capítulo 1. Entrando no bosque   
"Só quero dizer que em qualquer narrativa de ficção é necessária e fatalmente rápida porque, ao construir um mundo que inclui uma multiplicidade de acontecimentos e de personagens, não pode dizer tudo sobre esse mundo. Alude a ele e pede ao leitor que preencha toda uma série de lacunas. Afinal, todo texto é uma máquina preguiçosa pedindo ao leitor que faça uma parte de seu trabalho." p.9


capítulo 2. Os bosques de Loisy   
"Há duas maneiras de percorrer um texto narrativo. Todo texto desse tipo se dirige sobretudo a um leitor-modelo do primeiro nível, que quer saber muito bem como a história termina. (...) Mas também todo texto se dirige a um leitor-modelo do segundo nível, que se pergunta que tipo de leitor a história deseja que ele se torne e que quer descobrir precisamente como o autor-modelo faz para guiar o leitor. (...)" p. 33

capítulo 3. Divagando pelo bosque   
"Quando enalteceu a rapidez, Calvino preveniu: ´Não quero dizer que a rapidez é um valor em si. O tempo narrativo também pode ser lento, cíclico ou imóvel... Essa apologia da rapidez não pretende negar os prazeres da demora´. Se tais prazeres não existissem, não poderíamos admitir Proust no Panteão das letras." p. 55 
"Demora nem sempre indica nobreza." p. 66

capítulo 4. Bosques possíveis   
"Qualquer passeio pelos mundos ficcionais tem a mesma função de um brinquedo infantil. As crianças brincam com boneca, cavalinho de madeira ou pipa a fim de se familiarizar com as leis físicas do universo e com os atos que realizarão um dia. Da mesma forma, ler ficção significa jogar um jogo através do qual damos sentido à infinidade de coisas que aconteceram, estão acontecendo ou vão acontecer no mundo real. Ao lermos uma narrativa, fugimos da ansiedade que nos assalta quando tentamos dizer algo de verdadeiro a respeito do mundo." p. 93.
 
capítulo 5. O estranho caso da rue Servandoni   
"Como leitores empíricos sabemos muito bem que lobo não fala, mas como leitores-modelo temos de concordar em viver num mundo em que lobos falam". p. 113

capítulo 6. Protocolos ficcionais   
"De qualquer modo, não deixamos de ler histórias de ficção, porque é nelas que procuramos uma fórmula para dar sentido a nossa existência. Afinal, ao longo de nossa vida buscamos uma história de nossas origens que nos diga por que nascemos e por que vivemos. (...)" p.145

Esse livro merece uma releitura imediatamente. heheh

Um beijo bom, 
Camilla.

3 comentários:

Bruna disse...

Desde que eu li na faculdade "Como Fazer uma Tese" do Umberto Eco, nunca mais abri um livro dele, tinha achado uma chatice! Mas....acho que acabei de mudar de ideia! :P

Camilla Caetano disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Camilla Caetano disse...

Confesso que há muito tempo abandonei o Baudolino (que havia retirado na biblioteca)... Os romances de Umberto Eco são pra poucos... mas tenta o livro ´Seis passeios..`, que por ser um compilado de conferências posteriormente degravadas tem uma pegada mais informal.. linguagem mais objetiva! Bjoss

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