quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

FESTA NO COVIL, Juan Pablo Villalobos

Quem mora em Santa Maria-RS conhece o trajeto pra capital de cor e salteado. Se for de ônibus para Porto Alegre, então, sabe das infindáveis 4 HORAS de viagem, acrescida de alguns minutos se a chegada concidir com a hora do rush.
Pois bem. Precisei de duas horas e pouco desse percurso pra iniciar e terminar Festa no covil, de Juan Pablo Villalobos. Quero dizer com isso que eu leio em qualquer ambiente até com banda marcial tocando o livro é tão bom e divertido que a leitura flui e não vemos o tempo passar!

Em Festa no covil conhecemos a cruel realidade do tráfico de drogas no México a partir dos olhos do menino Totchili, de 9 ou 10 anos de idade. Ele é filho de Youcault, também chamado El Rey, um poderoso traficante que tenta educar e proteger o menino cercando-o de brinquedos caros, animais exóticos e professor particular, isolando-o do mundo externo. Sagaz e inteligente, o menino gosta de ´investigar mistérios`,  cuidar dos bichos de seu zoológico particular e venerar os franceses (porque decapitavam com o cuidado de por um cesto para as cabeças não rolarem)... Eis alguns trechos do primeiro capítulo:

"(...) Aí o Mazatzin veio trabalhar com a gente, porque o Mazatzin é dos cultos. O Yolcaut diz que os cultos são pessoas muito metidas porque sabem muitas coisas. Sabem coisas das ciências naturais, como que as pombas transmitem doenças nojentas. Também sabem coisas da história, como que os franceses gostam muito de cortar a cabeça dos reis. Por isso os cultos gostam de ser professores. Às vezes eles sabem coisas erradas, como que pra escrever um livro você tem que ir morar numa cabana no meio do nada e no alto de um morro. Quem diz isso é o Yolcaut, que os cultos sabem muitas coisas dos livros, mas não sabem nada da vida. A gente também mora no meio do nada, mas não é pra se inspirar. A gente está aqui para a proteção."

Totchili conta das divertidas "brincadeiras" que faz com seu pai:
 
"(...) Uma das coisas que aprendi com o Yolcaut é que às vezes as pessoas não viram cadáveres com uma bala. Às vezes precisam de três balas ou até de catorze. Tudo depende de onde você atira. Se você atira duas balas no cérebro, com certeza elas morrem. Mas você pode atirar até mil vezes no cabelo que não acontece nada, apesar de que deve ser bem divertido de ver. Eu sei dessas coisas por causa de um jogo que eu e o Yolcaut costumamos jogar. O jogo é de perguntas e respostas. Um fala uma quantidade de tiros e uma parte do corpo, e o outro responde: vivo, cadáver ou diagnóstico reservado."
 
O laranja neon ofuscante da capa chama tanta atenção quanto o que lemos nessas 96 páginas permeadas de sarcasmo e ironia que conferem comicidade à questão do narcotráfico. Essa intenção do autor foi comentada numa entrevista na Festa literária de Paraty, onde pontuou ser possível ter uma forma maneira mais descontraída de abordar os temas, sem perder a profundidade. Não é preciso ser solene para ser profundo. Isso é o que eu tento fazer também com a minha literatura (entrevista para o portal IG).
 
"(...) E assim por diante. Quando acabam as partes do corpo, procuramos partes novas num livro que tem desenhos de tudo, até da próstata e do bulbo raquidiano. Por falar no cérebro, é importante tirar o chapéu antes de atirar no cérebro, para ele não manchar. O sangue é muito difícil de limpar. Isso é o que a Itzpapalotl, que é a empregada que faz a faxina do nosso palácio, repete o tempo todo. Isso mesmo, o nosso palácio, o Yolcaut e eu somos donos de um palácio, e olha que nem somos reis. Acontece que temos muito dinheiro. Muitíssimo. Temos pesos, que é a moeda do México. Também temos dólares, que é a moeda do país Estados Unidos. E também temos euros, que é a moeda dos países e reinos da Europa. Acho que temos bilhões dos três tipos, mas as notas de que mais gostamos são as de cem mil dólares. E além do dinheiro temos as joias e os tesouros. E muitos cofres com senhas secretas. É por isso que conheço poucas pessoas, treze ou catorze. Porque se eu conhecesse mais iam nos roubar o dinheiro ou passar a perna na gente como fizeram com o Mazatzin. O Yolcaut diz que precisamos nos proteger. Os bandos também são sobre isso."
 
Esse é o primeiro romance de Juan Pablo Villalobos, nascido em 1973 em Guadalajara, mas atualmente mora no Brasil. E acaba de lançar o Se vivêssemos em um lugar normal, também pela Companhia das Letras.
 
E aí? Curtiu o Villalobos?
Na próxima viagem Porto Alegre-SM ou vice-versa já tens uma ótima dica de leitura!!
 
Um beijo bom,
Camilla.

3 comentários:

Bruna disse...

Para variar mais um livrinho para a minha lista, vou começar a trocar livros de muitas páginas por aqueles mais fininhos, só para trazer mais histórias para essa vida! Valeu a dica Camila! ;)

Aline T.K.M. disse...

Curti muito a resenha, até porque o Villalobos é um autor que quero ler faz tempo. Ainda não li Festa no Covil, mas está na minha listinha de desejados, e desde o lançamento do Se vivêssemos em um lugar normal, fiquei louca para comprar os dois.

Um beijão, Livro Lab

Carla C. disse...

Uma das minhas melhores leituras do ano passado. Quero muito ler o novo dele, que saiu há uns dois meses.
Beijo, feliz natal!

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