sexta-feira, 11 de outubro de 2013

DO QUE EU FALO QUANDO FALO DE CORRIDA, Haruki Murakami

O simplório ritual de calçar o par de tênis e encaixar o fone do Ipod no ouvido precede essa atividade tão completa (mental e fisicamente) que é a corrida.
O calcanhar deve tocar primeiro o chão, seguido de toda a extensão do pé que, carimbando o chão, impulsiona ao próximo e repetido movimento... A passada vai compassada no ritmo da música e no tênis que bem entender. A depender da direção do vento e do espírito, minha trilha é Gipsy Kings, samba, Madonna ou deep house. Calço adidas ou mizuno, sem muita frescura, e lembrando que, apesar de haver tênis para qualquer bol$o, não vai ser o gel que interferirá na performance de uma iniciante como eu. E assim começa a liberação da endorfina.
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Pra quem gosta e costuma correr, mais do que wave creation ou gel kayano, esse livro é um MARAVILHOSO propulsor! Aos que (ainda) não enfrentaram a rua, será uma interessante cutucada motivacional! São APENAS 152 páginas em papel pólen soft, com as características margens largas da Editora Alfaguara (isso significa que o livro é curto!)  

O Haruki Murakami é um escritor e tradutor japonês cujos livros alcançam recordes de vendas no mundo! Já tinha notado a popularidade dos romances 1Q84, Norwegian Wood, Kafka à beira-mar, Minha querida Sputnik, mas esse aí da capa psicodélica preto e branca com vermelho foi o primeiro que li! E que leitura top! [Amigos, acho que esse post vai ser grande, não vou resistir a colocar alguns trechos (em itálico), ok?]
 
Do que eu falo quando falo de corrida não é um livro de autoajuda ou manual de como ser saudável correndo, portanto não espere conselhos de alimentação+água+sono. Aqui o ´´esporte`` corrida é erigido a um estilo de vida, ou melhor, a uma filosofia de vida, como um método simples, gratuito e eficaz de alcançar a felicidade pisando quilômetros. :D
Murakami fala sobre correr com disciplina (como absolutamente tudo que os japas fazem), não porque um treinador está gritando do lado, e, sim, por determinação da sua própria mente; não porque precisa emagrecer, mas porque se sente VIVA e PLENA suando enlouquecida na Avenida Medianeira. Se tá difícil encaixar um tempo...
.. você precisa realmente estabelecer prioridades na vida, imaginando em que ordem deve dividir seu tempo e sua energia. Se não consegue estabelecer esse tipo de sistema em uma certa idade, vai perder o foco e sua vida fica em desequilíbrio. p.37
Numa escrita simples e direta, ele relata sua experiência de corredor (e escritor), descrevendo os passos, dor, prazer, raiva, consciência respiratória, etc, das maratonas que decidiu correr anualmente, a partir dos 33 anos de idade:
Certo dia, do nada, quis escrever um romance. E um dia, do nada, comecei a correr – simplesmente porque eu quis. Sempre fiz o que tive vontade de fazer na vida (p. 127).
Corredores iniciantes ou avançados têm que ler esse livro, cuja resenha eu dedico pra Ingrit Gava, Dudu Jobim, Margot Tome, Rodrigo Minuzzi, Júlia Rebelato, Rômulo Oliveira e Ivanise Pereira !
Se você quer desfrutar os anos, é muito melhor vivê-los com objetivos claros e plenamente vivo do que numa bruma, e acredito que correr ajude a fazer isso. Forçar a si mesmo ao máximo dentro de seus limites individuais: essa é a essência de correr, e uma metáfora aplicável à vida – e, para mim, ao ato de escrever, também. Acredito que muitos corredores concordariam. p.73

orla de Floripa, abril/2013
Falando na atividade de escritor/corredor, Murakami determina que você precisa transmitir continuamente o objeto de sua concentração para seu corpo todo, e se certificar de que ele assimilou por inteiro a informação necessária para que você escreva todo dia e se concentre na tarefa diante de si. E gradualmente você expandirá os limites do que é capaz de fazer.(p.70). E mais... acho que fazer algo por si mesmo (e nao para espectadores) é o trunfo dos que vencem, seja um campeonato de xadrez, vaga de emprego ou rústica sem premiação. Desde início de 2013 estou sendo conquistada e surpreendida por essa atividade, que inclusive proporciona novas amizades. :)
 
Para mim, correr é tanto um exercício como uma metáfora. Correndo dia após dia, colecionando corridas, pouco a pouco elevo meu patamar, e cumprindo cada nível aprimoro a mim mesmo. Pelo menos é nisso que deposito meu empenho dia após dia: elevar meu próprio nível. p.16
Ao narrar step-by-step uma ultramaratona, quando cruzou a linha de chegada, descreve:  Um sentimento pessoal de felicidade e alívio por ter aceitado fazer uma coisa arriscada e mesmo assim ter encontrado forças para superá-la. Nesse caso, o alívio sobrepujou a felicidade. Era como se um nó cego dentro de mim estivesse gradualmente se afrouxando, um nó de que eu nem sequer me dera conta, até então, de estar ali. p.101.
 
Falo por mim, com meu razoável pace médio de 5,40min/k, que correr é uma atividade que precisa apenas dois itens: tênis e vontade. E dispensa apenas 1 item: desculpinhas.
 
 
Tenho apenas alguns motivos para continuar a correr, e um caminhão deles para desistir. Tudo que tenho a fazer é manter esses poucos motivos muito bem-cuidados. p. 66


Um beijo bom,
Camilla.

3 comentários:

ia disse...

Que lindo, Camila! Este livro deve ser incrível, pois tudo que grifaste é a mais pura verdade! Fiquei louca pra ler! Parabéns pelo blog! Bjos, Ingrit

Carla C. disse...

Esse livro é demais, né?

Camilla Caetano disse...

Esse escritor é muito bom... como eu disse, parece que o dom dos orientais é a disciplina em prol da perfeição.
:)

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