segunda-feira, 30 de setembro de 2013

OS ENAMORAMENTOS, Javier Marías

Todos os dias, numa cafeteria, María Dolz observa um homem e uma mulher felizes. Certa feita o casal para de frequentar o local e ela fica chateada, porque aquela romântica visão matutina era o elixir do seu dia, o que dava gás para sua rotina de trabalho sem [muitas] emoções numa editora.
Depois de um tempo, María descobre que o homem foi assassinado e resolve se aproximar da viúva pra dar os pêsames e revelar o voyeurismo a admiração inocente que nutria por eles. Nessa função, Maria acaba se envolvendo com Javier Díaz-Varela, melhor amigo do falecido Miguel Desvern, que supostamente aguardava passar o luto daquela mulher para, então, tomar seu lugar!?
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A icônica fotografia de Elliott Erwitt na capa sugere um romance água-com-açúcar com final feliz, mas não se engane leitor desavisado! Está-se diante de um livro que explora a ausência e o reflexo desse vácuo nas pessoas que continuam vivendo. Em outras palavras, a morte de um personagem é o estopim e pano de fundo da história de suspense que vai sendo contada.
[Não recomendaria essa leitura pra quem teve recente perda (real ou metafórica) – seja de ente querido, de dignidade ou de grande-amor-da-vida -, mas cadum, cadum... Aviso de amiga].

Prepare-se para inúmeros monólogos e diálogos imaginários!
O texto é pura digressão da María em relação aos demais - o que pensou, o que pensaria, o que deixou de pensar, afff! Diria que somos obrigados a entrar na pele da personagem através dos seus devaneios, o que torna a leitura cansativa, mas ao mesmo tempo acelerada pelo fator ansiedade. Eu engoli esse livro em poucos dias, possivelmente pela aflição de saber no que tudo aquilo ia resultar. Aliás, o escritor é tão fera que ao fechar as 343 páginas permanece a dúvida (cruel) do que realmente aconteceu!
Para além de uma truncada narrativa está o estilo peculiar do Javier Marías, que em Os enamoramentos explora devaneios afetivos, crime mal solucionado e toda série de pensamentos que tomam a cabeça de quem está enamorado. Até O Coronel Chabert, de Honoré de Balzac e Os três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas são citados para auxiliar a compreender Javier...
O que aconteceu é o de menos. É um romance, e o que acontece neles não tem importância, a gente esquece, uma vez terminados. _p.139.
Me rendi a Os enamoramentos pela capa e pelo burburinho em cima do escritor Javier Marías à época em que comprei - em novembro de 2012 o livro veio morar na minha estante, mas só agora fui ler. No dia 31/08/2013, em Palma de Mallorca - ES, Javier foi premiado com o ´Formentor de las letras`. El premio Formentor de las Letras se convoca para reconocer el conjunto de la obra narrativa de aquello escritores cuya trayectoria prolonga la gran tradición literaria europea siendo su principal objetivo contribuir a consolidar y reconocer la posición de los autores que han sabido mantener su esencia literaria. (fonte: eluniversal). Vale conferir o blog do escritor: http://javiermariasblog.wordpress.com/

É um livro denso e reflexivo, que eu resumeria facinho assim: María Dolz começa como voyeur e acaba envolvida na trama, sabendo mais do que deve e supondo o menos que sabe. :)

Um beijo bom,
Camilla.

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