quinta-feira, 12 de setembro de 2013

O OCEANO NO FIM DO CAMINHO, Neil Gaiman

Como fazer um review se após a leitura sobraram mais emoções do que impressões? Como descrever em palavras sentimentos profundos e incomodativos que sacodem dentro do peito e que em maior ou menor escala acometem everybody?

Ser criança é a imposição primeira para quem nasce. A infância é a base da compreensão de mundo que construímos ao longo da vida e Gaiman cutuca tudo isso em O oceano no fim do caminho. Aí eu pergunto:
Em que momento na conversão para a vida adulta nossa memória da infância fica comprometida e rompemos com o olhar puro e imaginativo? Será que é quando conseguimos sozinhos abrir a torneira da pia? Ou quando recebemos a responsa de carregar as chaves de casa? Ou quando ousamos questionar o porquê de esperar 2 horas para entrar na piscina depois de comer melancia?
*
Pois bem. Um homem é encarado pelo seu próprio passado ao retornar à terra natal para um enterro dum familiar. A partir de então, os olhos e a voz narrativa são do menino que um dia ele foi, e como que transportado no tempo ele reencontra a casa e o lago das vizinhas onde brincava e se refugiava quando a situação da sua família ficava tensa. O personagem que não tem nome mistura realidade e fantasia para compreender a morte do seu gatinho, a conturbada relação com a irmã e o casamento dos pais, comprometido pela intrusa babá Ursula... 
As coisas descritas são absolutamente inacreditáveis: a literatura fantástica do Gaiman afoga nosso padrão linear de descrever os acontecimentos ao mesmo tempo em que surpreende pela naturalidade da narrativa. Somos levados suspensos em tensão até o final, questionando se o que lemos é bom ou ruim, palpável ou sonhado.  :O

Conheci esse escritor quando li Coraline e achei tudo mucho loco, como expressei aqui. Agora encaro O oceano no fim do caminho - anunciado como seu ´novo livro adulto` (o último foi publicado em 2005) - com a sede de continuar explorando sua obra!

Em O oceano no fim do caminho não tive controle se o que lia era realidade ou imaginação da cabeça do guri, mas imersa na história captei temas afetos à prosaica vida adulta (medo, perda, moralidade, traição e família) que justificaram toda a comoção do lançamento. E não é só porque é fino (208 p.) que vai ser uma leiturinha de passatempo.

Eis a sinopse deste livro tocante:

Foi há quarenta anos, agora ele lembra muito bem. Quando os tempos ficaram difíceis e os pais decidiram que o quarto do alto da escada, que antes era dele, passaria a receber hóspedes. Ele só tinha sete anos. Um dos inquilinos foi o minerador de opala. O homem que certa noite roubou o carro da família e, ali dentro, parado num caminho deserto, cometeu suicídio. O homem cujo ato desesperado despertou forças que jamais deveriam ter sido perturbadas. Forças que não são deste mundo. Um horror primordial, sem controle, que foi libertado e passou a tomar os sonhos e a realidade das pessoas, inclusive os do menino.

Aproveito o mergulho para citar o magistério do sociólogo Zygmunt Bauman, em especial no livro Amor líquido (Zahar, 2006), que invariavelmente recordei durante a leitura.
De modo que aqui estamos, manobrando, vacilantes e desconfortáveis, entre dois mundos notoriamente distantes um do outro e com pendências entre si, mas ambos desejáveis e desejados – sem passagens claramente traçadas, para não falar de caminhos trilhados entre ambos.
Um beijo bom,
Camilla.

5 comentários:

Fernando disse...

Oi Camilla descobri seu blog atraves de um comentario que vc deixou no blog rizzenhas e estou gostando muito.
Um abraço do mais novo seguidor.
Fernando.

Camilla Caetano disse...

Oie, que legal!
Obrigada, Fernando!! :D

Abraçãao,
Camilla

Cleuber Roggia disse...

Lendo ;)

Lu Tazinazzo disse...

Cami, adorei o livro mas acho que nem captei 20% do que ele tem a oferecer. É um dos livros mais complexos que o Gaiman já escreveu, por isso, vou lê-lo de novo com certeza. Acho que quanto mais lemos, mais descobrimos e ganhamos com isso.

Camilla Caetano disse...

Affff.. também senti isso hehehhe (mas nem por isso deixei de ´´ousar`` escrever meu pitaquinho..)
Diante de uma fã do Gaiman, reduzo-me!
Qto mais lemos.. mais descobrimos, com certeza!! :)
Bjo!

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