segunda-feira, 26 de agosto de 2013

O EXÉRCITO DE UM HOMEM SÓ, Moacyr Scliar

O Exército de um homem só foi o livro debatido em agosto pelo clube de leitura Companhia de Papel aqui em Santa Maria. Nosso gaúcho Moacyr Scliar dispensa apresentação, por isso vou direto ao ponto.

Mayer Guiznburg é um menino judeu que vem da Rússia para morar em Porto Alegre com sua família. Impregnado com ideias marxistas, ele se ´´transforma`` no Capitão Birobidjan e resolve construir a ´´nova Birobidjan`` no bairro Bom Fim, uma utopia socialista que leva o nome de uma colônia judaica na Rússia.
Mayer é seguidor da revolucionária Rosa Luxemburgo, cuja militância marxista deu origem ao Partido Comunista da Alemanha. As convicções ideológicas de R. Luxemburgo orientam a rebeldia e o fervor de Mayer para acabar com a diferença de classes. 
O humor irônico do Scliar faz a história divertida e leve, em que pese o tema político-revolucionário de implementação de uma sociedade igualitária. O tom engraçado fica por conta da interação esquizofrênica de Mayer com os companheiros porco, cabra, galinha e os homenzinhos, sendo impossível não dar umas risadas! Recordo que em A mulher que escreveu a Bíblia tive a mesma impressão, considerados o deboche e a heresia. :P
O exército de um homem só é uma das ficções mais importantes da década de 70. Escrito nos ventos da ditadura militar e com o pulso na própria biografia de Scliar, imigrante judeu, a conexão da fantasia com fatos históricos (reais!) revela a riqueza que a literatura brasileira pode proporcionar. (E também inspirar, a exemplo da música do Engenheiros do Hawaii: Somos um exército, o exército de um homem só /   No difícil exercício de viver em paz / Nesse exército, o exército de um homem só / Todos sabem / Que tanto faz / Ser culpado / Ou ser capaz / Tanto Faz...)
Apreciei o livro, a história, as personagens, mas confesso que não me envolvi na leitura. O exército de um homem só é uma perfeita mistura de ´Dom Quixote` com ´A revolução dos bichos`, motivo pelo que – ao menos pra mim - não pareceu ser uma leitura inédita. Sabe quando falta o prazer do inusitado? Enfim. Vou dar um tempo em distopias e jogar a leitura do 1984 (George Orwell) lá pra fins de 2014. heheh 
Eis algumas pontuações no encontro do Clube de Leitura:
- Para Mayer, o silêncio da companheira galinha é mais alto que os aplausos dos homenzinhos?
- Moacyr consegue representar na figura de Leia o poder feminino, tal como a Rosa Luxemburgo da vida real?
- Comente a frase de Rosa Luxemburgo associando com o livro: ´´Quem não se movimenta, não sente as correntes que o prendem``
- Birobidjan era a Dulcinéia de Mayer?
- ´´Uma mentira progressista vale mais do que uma verdade reacionária``?
- Qual veículo de comunicação que mais se parece com a ´´A voz de Nova Birobidjan``? 
- Comente o trecho ´´Relações pessoais não tem nada a ver com relações de produção``.
*
Superando mil vezes minha rasa análise, sugiro a inteligência deste artigo aqui, em que o professor gaúcho Dr. Flávio Loureiro Chaves adentra com muita propriedade no universo Scliar. Reparem só:
(...) Pertencendo à geração dos filhos dos primeiros imigrantes, foi justamente isto que Scliar percebeu com notável intuição ao escrever os seus textos, ora resgatando a memória da infância translata nesse espaço singular, ora fixando tipos, usos, costumes, também um acervo lendário praticamente inesgotável que ele não hesitou em aproveitar no seu mundo fictício. (...) No Bom Fim de Moacyr Scliar o imigrante judeu e sua descendência ganharam a cidadania literária. (...) Se a minha hipótese estiver correta, A guerra do Bom Fim (1968), O exército de um homem só (1973) e Os deuses de Raquel (1975) formam uma trilogia. A visão do mundo está longe da neutralidade; ao contrário, revela-se essencialmente problemática. Os judeus expatriados no Bom Fim conservam a tradição milenar de que são herdeiros e portadores; por outro lado, vivem o drama da luta por um lugar ao sol na cidade que os acolheu mas é um espaço alheio, freqüentemente perturbador, cuja adapatação impõe profundas e irrecorríveis modificações desta mesma tradição. Aí está - na ultrapassagem do que poderia ter sido puro e simples documentário - o foco dramático onde Scliar projeta as personagens. (...) 
Também digno de aplausos, vale conferir o artigo intitulado O regime da utopia em O exército de um homem só, do Dr. Jean Pierre Chauvin (Doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP).
Um beijo bom,
Camilla. 

Um comentário:

Cleuber Roggia disse...

Hey, Camilla! (esse Hey é seu hehe) Bom, se você não se envolveu com ó livro e esperava mais, certamente que falta mesmo isso O Exército de um Homem Só. Acho fundamental no livro ele ter aquele "que" de bah, que coisa! Claro, por vezes, a gente escolhe o livro e falta isso, Fato é que faltou pra vc, então realmente não tem no livro, pois seu crédito é altíssimo naquilo que escreve, que sente, que bota na tela. Beeei! E quanto ao 1984, que é uma distopia, concordo que vc deixe para mais tarde (bei, bota tarde... 2014)... peraí, quase que o Inter toma um gol do Salgueiro, aí, sim, né!!! Essa zaga... hehe... voltando ao 1984, achei uma leitura pesada, mas o livro posso dizer que é bom. Mas também não é aquela coisa "bah, que livro maravilhoso". Os posfácios fazem uma crítica bem legal e que realmente comprovam que o livro deixa um pouco a desejar, apesar de ser uma leitura que cabe na realidade (vc tem toda razão). Ah, quero ler Clube da Luta. Um beijo e obg pelo seu comentário e visita, sempre. Bj, Cami... Cleuber ;)

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