segunda-feira, 19 de agosto de 2013

O ENCANTADOR - Nabokov e a felicidade, Lila Azam Zanganeh

Mais um livro que arrebata o coração e confirma meu prazer pela leitura: O Encantador - Nabokov e a felicidade (2011), de Lila Azam Zanganeh.
Fui hip-no-ti-za-da pelo texto cuja beleza transcende as linhas e parágrafos e conduz a um mergulho em apneia no significado de felicidade. Essa palavra mágica que desponta como ideal de vida de 99% das pessoas e que quando vai embora a saudade no peito ainda mora e é por isso que eu gosto lá de fora onde sei que a falsidade não vigora.
Conheci a jovem escritora franco-iraniana Lila Azam pelo site da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP 2013), que previa sua participação no dia 5 de julho na mesa de debate ´O prazer do texto`.
Entusiástica e estudiosa da obra de Vladimir Nabokov, Lila apresenta um ensaio sobre a felicidade a partir da fusão de biografias (dela e de Nabokov) e ficção. “Tomei a liberdade de misturar os gêneros – o eu torna-se personagem fictício. Cada capítulo do livro apresenta uma ideia de felicidade segundo o autor: a felicidade após a morte, a felicidade na memória, a felicidade no amor, felicidade na natureza, felicidade em palavras”, explica Lila.
Nas histórias e personagens de `Lolita´; `Ada ou Ardor´; e `Fala, memória´ há aquele olhar apurado sobre a vida e a natureza, apto a revelar o belo até mesmo nas pedras do caminho. E é por conta deste olhar que Lila intitula Nabokov como o ´escritor da felicidade`! Ele acreditava firmemente que a  natureza daria o dom da felicidade ao observador cuidadoso (p. 187).
 
Com autorização do filho (Dmitri Nabokov), O Encantador contém inúmeros trechos pinçados dos livros que citei acima, o que rendeu butterflies in the stomach pra ler Nobokov!! Acredito que a intenção mesma da autora foi desconstruir a criticada abordagem de temas sórdidos e revelar a faceta estilística do escritor, senão enaltecendo sua sensibilidade de colecionador de borboletas. Bons escritos tem um poder que só a inteligência emocional é capaz de captar, porque ressaltam a textura e a luminosidade dos detalhes e favorecem registros de otimismo e esperança que podem escapar à consciência. Daí dizer que leitura é fonte de felicidade. Ou nas palavras de Lila Azam: lemos para reencantar o mundo (p. 18).
Inexoravelmente inspirada por seu ídolo, Lila tem uma linguagem envolvente e faz descrições sinestésicas! Com uma significativa carga de subjetividade, tudo o que sabemos ou sentimos acontece por meio do tato, visão, olfato, paladar e audição, e feliz o escritor que, nesse sentido, aproxima palavras e sensações. Aliás, para Nabokov a grande literatura era uma conquista da linguagem, não das ideias (p. 134).
Por essas e outras que sorvi com deleite as 296 páginas, formato 15x23,  com tradução de José Luiz Passos, Alfaguara. Também não posso deixar de falar do projeto gráfico que contribuiu para meu `encantamento´: além de margens de 3 e 2,5cm pra quem adora tomar notas, a capa da edição brasileira é essa lindeza toda com fundo azul celeste e mariposas technicolor voando de dentro de um livro. É muito amor! :)

Encante-se com a entrevista de Lila Azam Zanganeh no Jô Soares, e as Conversas na Flip nesse vídeo:
:D 

Todos hão de concordar que para cada vivência há textura, cor, cheiro, sabor ou canção apropriada que, a meu ver, são elementos reais e concretos pra construir a dita felicidade
E talvez a realidade não seja duração. Muito embora seja tentador pensar que sim. (...) O presente é a memória sendo feita. (p. 123).
Cada vez que me miras
cada sensación
se proyecta la vida
mariposa technicolor. 
Um beijo bom,
Camilla.

3 comentários:

Cleuber Roggia disse...

Camilla! Eu sou fascinado por capas e títulos de livros. Sou seduzido facilmente. Parafraseando-te, o "encantamento" do conjunto capa-livro fica completo com seu conteúdo, mas pleno com sua resenha. Aliás, suas resenhas não são resenhas, são uma produção e uma pós-produção, algo que ultrapassa a barreira do resenhar. Seus trocadilhos e trejeitos são próprios e com copyright (eu acho q isso cabe aqui) e agradabilíssimos de ser ler. Sua escrita é sua e única. Não há como não ler os livros que você escreve a respeito. Eu já li. E li. E leio. Obg, mais uma vez, por me inspirar. E obg pela referência do #leituradeintervalo ao linkar esse livro "O Encantador" - que amável título - (que obviamente vou comprar e ler. Quer saber? curti muuuito! Cleuber

Camilla disse...

Caríiissimo Cleuber! Muito obrigada pela visita e pelo comentário!!
Temos muito o que trocar nessa vida, especialmente porque não daremos conta de ler tudo de tudo. Quanto aos elogios, fiquei toda prosa.. mas sou uma leitora afetiva e, por consequencia, escrevo com afeto. Se inspiro, poxa!! ;)
Como diz a filósofa Márcia Tiburi:
´´Todo livro tem em si sua própria teoria. Tentar dizer algo sobre ele implica uma exigência de respeito nem sempre tangível. Em geral, é o bom leitor, o leitor simplesmente afetivo, que a alcança. E ele, na maioria das vezes, cala, rende-se ao silêncio, a causa maior e o sincero efeito de toda literatura. (14.mai.2013)``
Volte sempre! :)

Cleuber Roggia disse...

Querida, Camilla!
Não há de que. Você não precisa agradecer. Eu agradeço pela nobre e única escrita, além da gentileza. Seu blog e sua escrita são únicos e "beeeeeem Santa Maria", como já te falei em outra oportunidade. E se você é uma leitora afetiva e escreve com afeto, então empatamos, pois também sou. E acho que até demais. E, sim, inspira. E inspira-me. Sobre "O Encantador", bom estou encantado.
Deixa eu te contar que ainda não terminei "O Manto" de Marcia Tiburi. O prólogo é de 230 pg, salvo engano(esse terminei, mas o livro me cansou quando chegou nas fitas da mãe dela). Mandei um tweet pra ela sobre o "prólo(n)go" do livro e ela me chamou de herói. Ela é 10.
E ah, obrigado pelo "Volte Sempre", mas, infelizmente, acho que não é possível voltar a um lugar do qual não saí.

E meu blog é www.leituradeintervalo.blogspot.com.br (repaginando)
Bj, Cleuber ;)

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