segunda-feira, 15 de julho de 2013

Intervenção de terceiro #3, com Vinícius Cavalheiro

A seção Intervenção de terceiro desta semana traz o escritor bósnio Aleksandar Hemon, que no início de julho esteve na Festa Literária Internacional de Paraty. Vale conferir o vídeo no youtube da mesa que ele participou [joga no youtube: FLIP 2013 - mesa 13 - O espelho da história]. 
Confira a resenha que o Vinícius Cavalheiro fez pra gente:

"O projeto Lazarus é uma crônica notável sobre perda, desesperança e crueldade impulsionada por um eloquente incômodo existencial. É cheio de humor e de piadas. E é, ao mesmo tempo, inexplicavelmente triste." The New York Times

Bom, primeiramente, gostaria de agradecer a Camilla pelo convite. O trabalho dela neste blog certamente é uma inspiração, tanto para aqueles que têm a leitura como hábito em suas vidas, como para aqueles que (ainda) não têm. Ela não me deixou escrever sobre “Deuses Americanos”, só porque ela não queria ler spoilers, já que este repousa confortavelmente em alguma posição intermediária na lista de 982387327923 livros que ela comprou e vai ler ainda este ano.

Sinceramente, nunca tinha ouvido falar no Aleksandar Hemon antes de ela me emprestar “O Projeto Lazarus”. E, depois de lê-lo, não vejo a hora de botar minhas mãos nos outros livros do autor.


Sobre ele: Hemon é bósnio, mudou-se em 1992 para os Estados Unidos, e, três anos depois, passou a escrever em inglês. “O Projeto Lazarus” foi eleito a melhor obra de ficção de 2008 pela revista "The New Yorker" e foi finalista do “National Book Award”.

O livro conta a história de Vladimir Brik, escritor bósnio que vive em Chicago, e que fica obcecado em contar a história de Lazarus Averbuch, judeu imigrante do leste europeu de 19 anos, que também vivia em Chicago, e foi assassinado em 1908 pela polícia local, por ter uma pretensa ligação com anarquistas. Lazarus era um sobrevivente do pogrom de 1903 em Kishinev. Brik viaja ao leste europeu em busca de informações sobre o passado de Lazarus, acompanhado do amigo e fotógrafo Rora, que registra a viagem através de suas lentes. As histórias de Brik e de Lazarus são narradas de forma alternada. Em 1908, a história começa com o assassinato de Lazarus, e o leitor o conhece apenas através dos depoimentos dos demais personagens, em especial a irmã Olga. É interessante ver a forma como o crime foi abordado na época, em que há uma verdadeira “caça às bruxas” aos anarquistas por parte da imprensa. A gratuidade do crime cometido contra Lazarus é encoberta por uma campanha contra o anarquismo. 
Hemon insere na narrativa trechos de reportagens dos jornais, bem como do suposto pensamento dos homens da força policial, claramente de forma a ironizar a predisposição a condenar indivíduos estrangeiros (rola também um paralelo com a América pós 11/09). A título exemplificativo, em determinado ponto da narrativa faz-se menção a uma reportagem publicada em um jornal local, que trás uma foto do rosto de Lazarus sob uma manchete intitulada “O tipo anarquista”. Sobre o retrato, estão espalhados números, listando as características típicas de anarquistas como sendo “1. testa baixa; 2. boca larga; 3. queixo retraído; 4. malares proeminentes; 5. orelhas gra ndes e simiescas”. Provavelmente os juristas de plantão lembrarão Lombroso neste momento.
Acho interessante mencionar que a história de Lazarus Averbuch, pelo menos em relação aos fatos centrais, é real (sobre isso, o autor inicia a narrativa dizendo: “O dia e o lugar são as únicas coisas de que tenho certeza: 2 de março de 1908, Chicago”). A obra, inclusive, é ilustrada com algumas fotos dele, fornecidas pela “Chicago Historical Society”. Dá pra ler um pouco sobre a história de Lazarus aqui.
Em 2004, a história é narrada do ponto de vista de Vladimir Brik, pessoa atormentada por uma crise de identidade, em especial pela sua condição de imigrante e pela estagnação de sua carreira de escritor (uma das principais “queixas” de Brik é o fato de ser sustentado pela esposa neurocirurgiã). Brik obtém uma bolsa de uma fundação a fim de escrever o livro e resolve reconstituir os passos de Lazarus no leste europeu, aproveitando, também, para visitar lugares referentes à sua própria origem. Para acompanhá-lo e registrar a viagem, Brik convida Rora, fotógrafo e amigo de infância de Saravejo.
Durante a viagem, Brik divaga sobre sua vida americana e sobre suas origens, e especula sobre as esperanças e sonhos de Lazarus, dividindo algumas dessas inquietações com seu companheiro de viagem. Rora, por sua vez, narra fatos que testemunhou (ou inventou), em especial durante a guerra civil de 1992, em Saravejo. Pra mim, o contraste entre as histórias de Brik e Rora são o ponto alto do livro. Enquanto Brik é dado a filosofar sobre a vida, Rora, responsável por boa parte do humor da obra, é um contador de histórias que não está lá muito comprometido com a realidade, e que também não é muito chegado em discussões existenciais.
O protagonista é claramente um alter ego do autor, sendo possível delinear diversas semelhanças entre eles. Ambos bósnios, nascidos em Saravejo, vieram aos Estados Unidos em 1992 e foram impedidos de voltar por causa da guerra civil em seu país. Além disso, para escrever “O Projeto Lazarus”, Hemon também excursionou pelo leste europeu, na companhia de seu melhor amigo, que também é fotógrafo (algumas das fotos tiradas nesta viagem ilustram a obra).
Bom, em resumo, é um livro fantástico. Hemon consegue contar histórias sobre pogroms, guerra civil na Bósnia, anarquismo nos EUA do início do século XX, imigrantes; mistura crenças e culturas das mais diversas, em duas épocas diferentes, e aborda os mais variados dramas existenciais, tudo com uma boa dose de ironia. Mais importante: faz tudo isso sem perder o “fio da meada” em nenhum momento, demonstrando, muitas vezes, as semelhanças dos sofrimentos vividos por pessoas com culturas/crenças/épocas completamente diferentes umas das outras, em especial, por aqueles que estão longe da sua terra natal. Afinal, “lar é o local que só descobrimos a distância.”

Obrigada, Vinícius, pela clara e objetiva resenha do Projeto Lazarus!! ;)
Certamente as 304 páginas (Editora Rocco) são um deleite para quem curte ironia refinada, descrição de ambientes em períodos bélicos e conflitos pessoais que independem de raça ou cultura. 
Bora descobrir o motivo pelo que O Projeto Lazarus foi eleita a melhor obra de ficção de 2008 pela New Yorker, além de Hemon ter sido  finalista do prêmio National Book Award.


Um beijo bom, Camilla.

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