sexta-feira, 14 de junho de 2013

A CONFISSÃO DA LEOA, Mia Couto

252 páginas de rugidos de leões 
e/ou surdos gritos humanos
Todas as manhãs a gazela acorda sabendo que tem que correr mais veloz que o leão ou será morta. 
Todas as manhãs o leão acorda sabendo que deve correr mais rápido que a gazela ou morrerá de fome.
Não importa se és um leão ou uma gazela: quando o Sol desponta o melhor é começares a correr. (Provérbio africano)
*
Poeta quando escreve prosa, sai de baixo! São enxurradas de abraços e beliscões linguísticos e metáforas não convencionais, além de uns quantos trechos pra anotar no seu moleskine!! 
A confissão da leoa foi a escolha de abril do Clube de Leitura Companhia de Papel (mais um livro no universo ´´animais`` heheh).
É uma obra ficcional, fruto de incursão do autor numa localidade moçambicana em que  ocorreram, durante um período, reiterados ataques de leões contra humanos. 
Na oportunidade, ele foi enviado e atuou como oficial ambiental de campo, além, é claro, de reunir anotações reais para forjar esse livro que ora vos apresento
 
Bueno. O livro é dividido em capítulos alternados entre dois narradores: o caçador Arcanjo Baleiro e a jovem Mariamar. Ele tem embates de consciência sobre a missão de caçar - animais e/ou homens... e ela nutre um interesse platônico neste homem que, na sua cabecinha, poderia tirá-la da tribo Kulumani e levá-la à liberdade... 
Em Kulumani, as mulheres não eram livres e a ´´fraqueza`` da figura feminina - tradicionalmente submissa em meio a crenças e rituais machistas - é trazida à luz nas personagens Hanifa Assulua, Silência, Mariamar e Naftalinda.. (a meu ver, funcionam como representação das mazelas da agressão sexual, incesto, indiferença, aborto e sofrimentos emocionais de toda a ordem).
Enfim, apesar do conteúdo forte e realista, Mia Couto passeia pelo fantástico para  suavizar (nem digo intencionalmente) o contexto hostil com lirismo. Sem falar na perícia linguística e alguns neologismos - marca carimbada dele!   :D   

Mia Couto é um biólogo moçambicano que escreve!! E, contrariando a massa de vaidosos que pululam nesse meio, ele próprio não se considera escritor profissionalmente falando: 
"eu fujo dessa casa chamada Literatura; eu sou um contador de histórias; quando vejo um grupo de escritores digo logo que sou biólogo". 
 
Mia Couto é filho de imigrantes portugueses e nasceu em 1955, na cidade de Beira, a segunda maior do país atrás apenas da capital Maputo. Na juventude, o escritor integrou o movimento pela libertação de Moçambique da dominação de Portugal. Após a independência, em 1975, trabalhou como jornalista em vários veículos e chegou a assumir o posto de diretor da Agência de Informação de Moçambique. Na década de 1980, ele voltou à universidade - onde tinha iniciado os estudos em Medicina - para cursar Biologia e exerceu profissão por muitos anos no país.  (fonte O Globo).
Para nossa alegria, ele acaba de receber o Prêmio Camões 2013, então foi providencial o Clube de Leitura ter essa leitura fresca. Eis um trechinho do discurso da Presidenta Dilma na entrega do prêmio: (...) a contribuição de Mia Couto extrapola os limites de sua arte. Oferece-nos o sonho de um mundo de compreensão e entendimento entre os seres humanos e desses com os mistérios da natureza, da vida e da morte.

Vale (mesmo!) conferir a sagacidade, humildade e apego às raízes na sua participação no programa Roda Viva, da Tv Cultura.

Mais de 25 línguas são faladas em Moçambique!! Assim, Mia Couto propõe deixar a linguagem oral entrar no texto, especialmente porque a oralidade transporta as histórias de umas pessoas para outras, de geração em geração...
Crenças e comportamentos sociais são transmitidos principalmente através da voz nesse país africano que engatinha independente desde 1975 e conta com no máximo 10 livrarias em todo seu território!  :O

Seguindo a mesma vibe do post A Revolução dos bichos, vou elencar alguns  dos questionamentos que propus no encontro do Clube de Leitura sobre A confissão da leoa:
- ``Ela diz que esse caderno é a sua única roupa´´ (p. 249). Qual a nossa única roupa?
- A serpente coxa somos nós mesmos?
- Pra você, Mariamar é Maria+mar ou Maria+amar?
- Com o atual empoderamento da mulher, houve inversão da juba? Hoje quem tem juba manda mais?
- Mariamar refere que o receio de todos os homens – inclusive Arcanjo Baleiro – era que regressasse o tempo em que nós, mulheres, já fomos divindades (p. 185). Nós, mulheres, já fomos divindades?
- A mãe do Arcanjo Baleiro tinha razão quando disse: ``Fica a saber, marido: este menino não será nunca um caçador´´ ?
- ``Você olha pra mim e é tão fácil mudar, qualquer plano..´´ (música ´Caça e caçador´, do Fábio Jr.). Como Mariamar é vista por Arcanjo na primeira e, depois, na segunda vez?
- Nossa sociedade capitalista vende a ideia do consumo como solução/satisfação/cura de males.. Atualmente, pratica-se o takatuka (p. 163)?
- Há um paradoxo ou paralelo entre as vidas/realidades de Naftalinda e Hanufa Assulua?
 
O meu ídolo Márcia Tiburi fala que ``Podemos passar séculos debatendo o gosto, afinal ele é formado cultural e educacionalmente´´
Ok, mas e quando esse gosto sequer é formado ou desenvolvido? .. 
O que dizer de tribos e vilarejos completamente isolados do resto do mundo e que apesar de independentes convivem com o muro invisível da opressão?? São aglomerados de homens e mulheres vivendo sabe-se lá onde, provavelmente num lugar onde regras morais repetem comportamentos abusivos e a perversidade de humanos e leões andam a par e passo... Aí me pergunto se os direitos humanos alcançam todos os cantos da África. Cri-cri-cri..

´´Sou um poeta que escreve em prosa``.
Por essa e outras acho válido apreciar nossa familiar Língua portuguesa pelas mãos brancas de um autêntico moçambicano, até porque um cara fã de Guimarães Rosa, Jorge Amado e que em sua cabeceira repousa o Livro do Desassossego merece nossa curiosidade e respeito! :) 

Um beijo bom, 
Camilla.

5 comentários:

Bruna Osório disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Bruna Osório disse...

Camila!
Muito bom os teus questionamentos, acho que foram além do que é dado no livro. Acredito que para todo poeta/escritor, ou seja qual for a denominação, a pessoa que escreve espera que o Outro, que lê, se questione além das perguntas deixadas... nesse sentido, me peguei, em vários momentos, sofrendo junto às mulheres "dos cantos da África". Hoje, trabalho com Mulheres, na perspectiva dos estudos de gênero e te digo, que os direitos humanos não são exercidos nem aqui. O incrível é ver como tantas mulheres ainda sofrem e são oprimidas, independente da cultura. O contexto cultural vai deixar mais explícito ou não, e talvez ter alguns outros rituais. Mas não podemos medir o sofrimento destas mulheres. Achei interessante o questionamento "Pra você, Mariamar é Maria+mar ou Maria+amar?", pois entra no 'conceito social' do nome "Maria" - a mulher que tudo suporta, forte, mãe... e eu vejo a ambivalência entre a Maria+Mar(poderia ser a Maria empoderada, que não suporta, não se deixa oprimir, como o mar, a cada onde se renova, mas pode ter momentos agitados e calmos, ir e voltar, de acordo com o contexto: o vento, o sol, as nuvens, a chuva) e a Maria+amar (Maria, mãe = desvinculada do ser mulher = uma vez que se torna mãe, acaba não sendo mais mulher). Posso ter viajado, mas este livro contextualiza o lugar das mulheres, ainda hoje em uma posição opressora. E teus questionamentos me aguçaram em novos pensamentos... Que sigamos fazendo essas interlocuções! Abraço!

Camilla Caetano disse...

Obrigada, Bruna! ;)
Estudar a Mulher atual e a dignidade (ou falta de) feminina é um contínuo trabalho de construção e desconstrução de paradigmas em todos os continentes e realidades. Fico lisonjeada e agradeço tua reflexão expressada no coment do post.
Quando elaborei os questionamentos, especialmente quanto ao nome da Mariamar, tinha presente meus próprios anseios já que também ´estudo` o papel da mulher, seja no movimento mariano que participo (Movimento Apostólico de Schoenstatt) ou no meu trabalho na Promotoria de Justiça.
A violência doméstica contra mulher, a mulher empreendedora, a mulher sedizente proprietária do seu útero, a formulação de políticas públicas,
etc... tudo gira em torno da suposta fragilidade feminina (muitas vezes
levantada por nós mesmas). Porém, cumpre reconhecer a força da complementação entre homem e mulher (veja ´´Equivalente, mas diferente´´ - texto no link: http://www.maeperegrina.org.br/dia-da-mulher-equivalente-mas-diferente/?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed%3A+maeperegrina+%28Campanha+da+Mãe+Peregrina%29 ) e enaltecer as qualidades de um e outro na construção de uma
família/sociedade.
Mia Couto fez uma denúncia social interessante, que infelizmente não é privilégio só da África. Nossa vizinhança é constantemente atacada por ´leões`, por isso é imprescindível pensar a diferença de gênero com um mote transformador! Beijo e volte sempre! Cami

Maria Rita disse...

Resenha linda! Adorei os questionamentos no final. Meu primeiro contato com Mia Couto foi através desse livro. ainda quero ler mais coisas dele, pois só conheço A Confissão da Leoa e O Outro Pé da Sereia, ambos sensacionais.

Parabéns pelo trabalho!

Maria Rita - http://elasleram.blogspot.com.br/

Camilla Caetano disse...

Obrigada, Maria Rita!
Quero ler outras coisas dele também! :)
Bjo!

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