quarta-feira, 10 de abril de 2013

A MÁQUINA DE FAZER ESPANHÓIS, Valter Hugo Mãe

Valorizada com investimentos e modernidades, a vida humana ganha qualidade em alimentação, saúde, esporte, entretenimento, e a longevidade tem sido a comemorada consequência, visto que mais de 15 milhões de brasileiros vivem na ´melhor idade`! (Censo 2000, IBGE).
Se por um lado acidentes e enfermidades ceifam a vida de jovens adultos, a grande maioria alcança os 60 anos vertendo saúde, vivacidade e disposição para novos projetos e novos amores.

A terceira idade (ou melhor idade) foi a temática estrutural da última obra debatida no Clube de Leitura Companhia de Papel!
Sem saber onde pisaríamos, escolhemos uma obra do escritor Valter Hugo Mãe, angolano radicado em Portugal, cuja autenticidade e qualidade têm sido reconhecidas mundialmente  por meio de prêmios literários e, principalmente, pela legião de fãs e seguidores (na qual me incluo desde então).

Conhecer a bela e ao mesmo tempo triste história de Antônio Silva, 84 anos, engasga...  Isso porque todos tivemos, temos ou teremos idosos próximos carecendo de cuidados especiais da senilidade - oxalá nós próprios - exigindo muita compreensão e respeito.
Nosso protagonista fica viúvo e é ´colocado` pela família num asilo. 
A máquina de fazer espanhóis é um retrato explícito da consciência e opiniões do senhor Silva que, além do luto pela perda da sua amada Laura, tem de administrar sentimentos de desgosto e ódio ante uma família indiferente, a redução da morada a uma patética cama e criado-mudo, e a angústia de se relacionar com estranhos com tantos defeitos quanto ele.

Antônio Silva, Silva da Europa, Senhor Pereira, Anízio, Dona Marta, Dona Glória, Esteves sem metafísica, Américo ... são nossos queridos ´amigos` que em +- 270 páginas fazem e vivem questionamentos sobre vida, doença, tempo, fé, morte, amizades e amores a partir da idiossincrasia do `Lar Feliz Idade´!

Quer participar? clubedeleituraciadepapel@gmail.com
Alguns membros do Clube de Leitura dizem suas impressões no sentido da maravilhosa constatação de que o ser humano pode viver 100 anos e ainda conservar a capacidade de se encantar, segundo Josianne Zanoto... Complementando que a leitura compartilhada é uma experiência muito diferente da leitura em si. O momento dos debates nos faz perceber como podemos ler algo de maneira diferente e, ao contrário, como as mesmas coisas também podem nos emocionar ou nos inquietar.
A Ana Bordin Anelli ressaltou que a lição do livro é uma maior preocupação com a época em que o corpo não corresponderá mais aos estímulos do cérebro. E que a narração de fatos simples pode resultar em grandes reflexões e em ótimos livros! Luciano Mai conta que só vê benefícios em participar do clube: 1) passou a ler mais; 2) teve acesso a livros que provavelmente nunca leria, mas que têm acrescentado muito à sua vida, e 3) a troca nos encontros é enriquecedora, pois as percepções diferentes somam à nossa própria experiência e conhecimento.


Registro que na qualidade de 'dinamizadora' do clube, dada a temática peculiar, convidei minha TIA ZENEIDA, do alto dos seus 72 anos de idade, para participar do encontro. A par do conteúdo do livro, ela brindou com sabedoria e sensibilidade o nosso debate. A Tia Zeneida (também chamada Dinda) ficou solteira e entregou sua vida em missão ao cuidar dos meus bisas e dos meus avós maternos, in memoriam. É um testemunho de vida de cuidadora muito lindo!! Ela SEMPRE diz: o amor supera tudo! E a família é o que há de mais importante nessa vida!!


Pois bem. O VHM é editor, artista plástico, vocalista de grupo musical, e também licenciado em Direito, detalhes dos seus 41 anos de idade e de inspiração observados nas letras minúsculas do livro. Sim. Usando da liberdade gráfica, todo o texto é escrito em minúsculas! No início é estranho, mas em seguida ganhamos um olhar diferenciado. :D

É a simplicidade que procura e está convicto de que usando apenas minúsculas não só o pode almejar, como "acelerar" a própria escrita. E "agilizando o texto" aproxima-o não só do ritmo da fala como do próprio pensamento. "A escrita convencional deita mão de tantos sinais que nos obriga a marcar uma distância permanente entre o que somos e o que o texto é", acrescenta. "Um texto mais acelerado permite uma respiração mais natural ao leitor encurtando essa distância". (artigo de site português).

A literatura portuguesa é afamada por Saramago e Eça de Queiroz, dentre tantos, e ouso dizer que Mãe respirou os mesmos ares..., pois apesar de retratar profundos dramas, apresenta situações irônicas e humorísticas, tratando com sensibilidade os pormenores da memória, fisiologia, valores e expectativas dos vovôs e vovós.

Poético e sem eufemismos, VHM dá lição de vida a partir de todas as linhas que escreve!! 

Um beijo bom, 
Camilla.

3 comentários:

Vitor E. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Camilla Caetano disse...

haahhaha Obrigada, Vitor!! Vou fazer o update, muito embora minha intenção tenha sido um rol exemplificativo dentre os escritores mais afetos à prosa. Apesar de que, realmente, não me ocorreu a lembrança de '..é ferida que dói e não se sente..' enquanto eu redigia o post.
Valeu, volte sempre! :D

Carol disse...

Oi Camilla!
Estou aqui retribuindo a tua visita ao meu blog! Adorei a "Companhia de Papel" e também a ideia do clube de leitura. Pena que POA-Sta Maria não sejam mais perto, porque do contrário gostaria muito de participar também!
Ainda não li VHM, mas tenho lido tanta coisa boa a respeito dele que meu interesse só cresce!

Bjs!

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