quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

A IDADE DOS MILAGRES, Karen Thompson

Fiquei muito impressionada com o livro A idade dos milagres, apesar de a ideia de fim do mundo ser batida e tema frequente do cinema holliwoodiano. Aliás, os americanos têm obsessão adoram terminar nosso mundo, não é? Olha a listinha.. O dia seguinte; Dia depois de amanhã; Independence dayPresságio2012Guerra dos mundos... [Os maias têm razão: o mundo vai acabar. Calma. Não será um único ato apocalíptico, mas uma sequência deles. E parece que só as baratas testemunharão]  :P

Para uma escritora incipiente, Karen Thompson saiu-se muito bem e foi destaque em 2012 com uma obra original e surpreendente cujo tema central é uma mudança na velocidade de rotação do Planeta Terra e todas consequências advindas disso (a bem da verdade, assustadoramente possíveis!).
''Não havia imagens para mostrar na televisão, nada de prédios em chamas ou pontes caídas, nada de metal retorcido ou terra arrasada, nada de casas se equilibrando na laje. Não havia feridos. Não havia mortos. De início, era uma catástrofe quase invisível."
A narradora em primeira pessoa é Júlia, californiana de 11 anos de idade, filha única. Mora com os pais no conforto e tranquilidade de condomínio classe-média-alta-tipo-Beleza-Americana. Júlia enfrenta certo distanciamento de sua melhor amiga; dificuldades de aceitação nalgum grupo da escola; sofre com a decisão de usar ou não sutiã (!), apaixona-se por um garoto diferente (essas coisas aparentemente banais do adolescer).
''Eram os últimos anos de ensino fundamental, a idade dos milagres, o período em que as crianças crescem sete centímetros e meio durante o verão, seios desabrocham do nada, vozes desafinam. Nossos primeiros defeitos começavam a surgir; mas eram corrigidos. Vista embaçada podia ser cosertada, de forma invisível, com a mágica das lentes de contato. Dentes tortos eram endireitados com aparelhos. Pele manchada podia ser clareada quimicamente. Algumas meninas começavam a ficar bonitas. Alguns meninos estavam ficando altos. Eu sabia que minha aparência ainda era a de uma criança."
As transformações da vida de Júlia são o contraponto das transformações da vida do planeta, já que sem motivo específico a rotação da Terra começa a diminuir de velocidade, gradativamente, causando aumento nas horas dos dias e das noites... 26 horas; 30 e poucas horas; 50 horas... (...)
Sutil e suavemente o leitor é absorvido para uma história factível, porque como não soubessem com exatidão ''se e quando'' cessaria a desaceleração as rotinas permaneciam quase intocadas. 
Pouco a pouco, o fenômeno denominado desaceleração justifica a morte de animais, a devastação de lavouras, o caos nos satélites e GPS, até atingir diretamente o ser humano - tanto física quanto psicologicamente.
''Tenho a impressão, hoje, de que a desaceleração desencadeou outras mudanças também, menos visíveis à primeira vista, embora mais profundas. Trajetórias mais sutis foram perturbadas: os caminhos da amizade, por exemplo, ou as idas e vindas do amor. Mas quem sou eu para dizer se o curso da minha infância já não estava definido muito antes daquele evento?''
Por conta da alteração no metabolismo e absorção de radiação, surgem enfermidades a que chamavam de ''síndrome''. A mãe de Júlia é acometida da ''síndrome'', além de conflitar com o esposo obstetra que segue sua missão de dar boas vindas a novos seres inaptos para enfrentar a desaceleração! :/
Algumas pessoas resolvem seguir o horário solar (horário real), já o Estado tenta impor a manutenção do horário do relógio (24h) para controlar o caos das instituições, sistema de transportes, recolhimento de lixo, abastecimento de estoques, etc. A sociedade biparte-se em a) interessados na luz natural (arcam com ônus da exposição à radiação), e b) os que tentam levar uma vida 'normal' dentro das fictícias 24 horas dos relógios de pulso. 

Destaco a narrativa lenta, mas ritmada e crescente, pois a tensão pré-apocalíptica chega aos poucos. Por outro lado, é notória a capacidade de adaptação das pessoas. Talvez seja essa a mensagem mais bonita do livro: aceitação e adaptação frente às adversidades.

''... Mas acho que aquilo que preocupa mais nunca é o que acontece, no final das contas. As catástrofes reais são sempre diferentes - inimagináveis, desconhecidas, impossíveis de prever.''
Seria uma utopia distópica ou uma distopia utópica?! heheh  Enfim, é um livro incrível!! 
''Muitos estudos se dedicaram a medir os efeitos físicos da síndrome, porém muito mais vidas do que a história jamais registrará acabaram transformadas pelas sutis mudanças psicológicas advindas da desaceleração. Por razões nunca totalmente compreendidas, o fenômeno, ou seus efeitos, alterou a química cerebral de algumas pessoas, perturbando notadamente o frágil equilíbrio entre impulso e controle.''
Como bem resumiu a Lu TazinazzoUm livro que vai te fazer pensar muito, sobre muitas coisas, por muito tempo.

Um beijo bom,
Camilla.

Um comentário:

RUIELOIAREND disse...

Vou ler. Acho e segundo a teoria de Schumann, isso realmente está acontecendo. O dia não tem mais 24 horas. É bem menos. Por isso, já é segunda, já é março e o dezembro está logo alí. Tudo passa muito de pressa e a humanidade está enloquecendo, a depressão imperando, etc,etc,etc. Parabéns pela escolha.

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