segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

PELAS RUAS DA CIDADE, João Marcos Adede y Castro


O final do ano é um cometa louco para transformar-se no vindouro, mas isso não é desculpa para abandonar metas tampouco negligenciá-las.
Entre um amigo secreto e outro, uma das minhas leituras de dezembro foi o recém lançado PELAS RUAS DA CIDADE, de João Marcos Adede y Castro – escritor local, advogado, Promotor de Justiça aposentado, com outras 17 obras publicadas, membro da Academia Santamariense de Letras.
Ele mantém um blog que vale acompanhar, onde, além de postagens jurídicas e culturais, se pode ler na íntegra o capítulo 1 e o capítulo 17 deste livro, que tem trechos assim...

(...) Outro dia estava dormindo embaixo de uma árvore, no meio da avenida, bêbado, pois fico tonto fácil, bebo dois copos de cachaça e já estou pronto para fazer todas as bobagens que todo bêbado faz, deito na sarjeta, vomito nos pés das pessoas que passam, uma desgraça. Acordei sentindo frio no meio das pernas, tinha urinado nas calças, puta que pariu, estou cada vez mais sujo, fedorento mesmo, vou ter de providenciar um banho no corpo e nas roupas. Para conseguir alguma esmola tenho de me aproximar das pessoas, mas se nem eu mesmo suporto mais meu cheiro, imagine os outros, as pessoas fogem de mim, e elas tem razão. (...)

Considerei Pelas ruas da cidade uma série de contos (capítulos) explorando a vida de morador de rua, da ótica de um morador de rua, cuja narração detalhada é assustadoramente real. Parece que o próprio escritor fez espécie de ´oficina` para reunir tantas minúcias da rotina daqueles que estão à margem.
(Não cheguei a perguntar para o Adede qual fonte de inspiração e/ou pesquisa para ter escrito esse livro, mas ofereço o espaço dos comentários para tanto! )

A realidade escrachada, e chocante em alguns pontos, causa efeito inevitavelmente transformador no leitor. Por meio desse impactante conteúdo vesti novos óculos para observar com atenção moradores de rua ou guardadores de carro ou mendigos, despida de medo e preconceito comumente sentidos. #meaculpa.

Como meros figurantes nas calçadas e semáforos, essa parcela da sociedade é invisível para muitos, por isso junto as mãos em aplausos ao escritor que consegue romper essa cegueira! 

Na calçada em frente a um restaurante esperando restos de jantares, ou em frente a vitrines de boutique sonhando trajar fraque e gravata – todos são livres para sonhar, não? o narrador em primeira pessoa nutre suas maiores esperanças: conquistar o alimento para a(s) refeição(ões) do dia e salvaguardar seu papelão que faz as vezes de cama à noite... Além de, em casos extremos, livrar-se de agressões gratuitas de homens-bicho sem um pingo de amor no coração.

Aborda e desborda solidão, alcoolismo, drogadição, carência, sexualidade, medo, etc...
E ao final de cada capítulo há comentário de um ouvinte das histórias do morador de rua, com pontuações ora críticas, ora cruéis...

Sem querer querendo, essa leitura aconteceu no mês da suposta sensibilidade de que todos são tomados, mobilizados por campanhas sociais de Natal onde necessariamente enxergam os menos favorecidos (talvez na tentativa de expurgar uma parcela da culpa por cuidar só do seu umbigo). Todavia, o espírito cristão, ou o ´´Papai Noel``, deve agir durante o ano inteiro, porque fome, frio e medo não escolhem estação.

Estou bem contente em prestigiar essa obra do militante social no município de Santa Maria, Prof. Adede, que não poupou palavras para tentar extrair da gente essa péssima reação chamada indiferença.

Sinto que a perfeita trilha sonora de Pelas ruas da cidade é este poema recitado pela Ana Carolina, que a meu ver fala do semblante pedinte, profundo e carente do qual quase sempre desviamos o olhar.

Um beijo bom,
Camilla.

3 comentários:

Emirie Hein disse...

Adorei amiga!!! E lendo seu post me deu uma vontade de ler..

Anônimo disse...

Interessante o livro. Seria legal saber qual foi o laboratório feito pelo autor pra retratar as historias. Nao lí o livro mas sendo real ou nao, viceral ou nao, a idéia de se pensar como seria estar no lugar das pessoas da rua já vale a leitura.
Bjo Camilinha!
Cris

Larissa disse...

Sempre achei, e a cada dia mais me convenço que conhecemos verdadeiramente as pessoas observando como elas tratam e reagem diante de pessoas "necessitadas". Nao consigo confiar, e muito menos gostar ou ter qualquer tipo de relação com pessoas indiferentes a tudo isso. Parabéns ao autor, e tb a ti amiga, pelo post que nos emociona e nos deixa com vontade de alem de ler o livro, fazer algo mais, "porque fome, frio e medo não escolhem estação". Bjo, maro!

Ocorreu um erro neste gadget