terça-feira, 13 de novembro de 2012

OS SOFRIMENTOS DO JOVEM WERTHER, Goethe

Aquele clichê ´melhor mudar de opinião do que não ter nenhuma pra mudar` é bem válido para uma Camilla um tanto quanto avessa aos romances de amores reais, platônicos ou correspondidos pela metade... Então, para experimentar um novo gosto literário, em novembro, me entreguei aos encantos do escritor alemão Goethe! 

Foi um divisor de águas (com açúcar) ler Os sofrimentos do jovem Werther (1774), pois negava fortemente que histórias de amor com ou sem final feliz fossem literariamente dignas de tomar meu tempo. Daí que fui muito feliz na escolha dessa leitura, confirmando que os clássicos tem que receber nossa devida atenção em meio a tantos best-sellers cinzas.

Os sofrimentos do Jovem Werther (pdf do livro aqui) é formado de cartas que o personagem Werther endereçou ao editor-personagem Wilhelm contando em minúcias as emoções e dissabores de amar Charlotte Buff, moça já comprometida com Albert. É um romance quase autobiográfico, pois o próprio Goethe, exercendo o Direito na cidade de Wetzlar, centro da corte de Justiça Imperial, conhece Charlotte Buff, por quem se apaixona perdidamente, apesar de sua musa ser noiva de um colega. Esta paixão quase o conduz ao suicídio, evento que posteriormente seria o mote inspirador do romance Os Sofrimentos do Jovem Werther, de 1774.(http://www.infoescola.com/biografias/goethe/)

No início, confesso, pensei que ia ser chatinho, mas surpreendi-me porque o texto é sincero, profundo e despido da complexidade da literatura alemãEnquanto declarava uma afeição louca por Lotte (apelido carinhoso), o jovem Werther descrevia o amor lato sensu com uma riqueza de detalhes (própria dos românticos quando falam a sua musa) e, ao mesmo tempo, com a simplicidade da vida real, deixando um espaço de atuação para o leitor criativo.
Na medida em que fui avançando, veio à tona a vibe de Dom Casmurro, obra eivada de mensagens não ditas para o leitor suspeitar, inventar ou supor... (obs: Talvez eu esteja concluindo, agora, que uma das características que eleva livros a clássicos é justamente essa proposital-simbiose-futura que o escritor permite acontecer de o leitor somar-se ao texto, tornando, portanto, cada leitura uma unidade em si; e cada leitor um escritor em potencial!). :)

Marco inicial do romantismo, considerado por muitos como uma obra-prima da literatura mundial, Os sofrimentos do Jovem Werther causou polêmica por instigar ao suicídio vários jovens apaixonados da época. Isso porque Werther tira a própria vida por amor (não é spoiler, porque, afinal, todos sabem seu the end).

Algumas transcrições...

´´Só isto basta: ela tomou conta de todo o meu ser.``
´´Tudo nos falta quando faltamos a nós próprios.``

´´Nada neste mundo nos torna mais necessários aos outros como o amor que lhes temos.``

´´ - Enquanto seus olhos estiverem abertos – respondi-lhe, fitando-a – não há perigo de que eu feche os meus.``

´´Wilhelm, que seria do nosso coração em um mundo inteiro sem amor?``

A obra reúne muitas características do movimento romântico: o individualismo e o subjetivismo, o instinto e  a exacerbação dos sentimentos, o escapismo e a imaginação, a religiosidade, o sonho, o culto à natureza, a melancolia, a idealização da mulher e do amor, etc. Veja bem, não pense que ele tooodo é tão meloso assim, pois tem inúmeras reflexões sobre a beleza da vida, humor, paz, natureza, etc. 

Rolou fortemente uma identificação comigo, por exemplo, nesse trecho (quem me conhece saberá heheh): 
(...) Concordo (porque já sei o que você vai dizer a respeito) que os mais felizes são exatamente aqueles que vivem sem pensar nos futuro, como as crianças, passeando, despindo e vestindo suas bonecas; aqueles que rodam respeitosamente em torno da gaveta onde a mãe guardou os doces e, quando conseguem agarrar, enfim, as cobiçadas guloseimas, devoram-nas avidamente e gritam: ´´Quero mais!``, eis as criaturas felizes. (...)
Enfim, Goethe descreveu como um sentimento desenfreado e sem limite ocupou a mente e coração de Werther que impossibilitado de viver o sonhado romance surtou e tirou sua vida! A alguns olhos é uma leitura meio down, mas eu achei desafiador perceber as inquestionáveis pureza e força do amor, perfumadas de ternura, apego e idolatria, tornarem-se loucura e resoluta morte. Pra dizer a verdade, eu estava sentindo uma peninha do Werther, etc, etc, até que vieram parágrafos reveladores!!! Ora, não era tão platônico assim: ela retribuía a paquera e alimentava os anseios dele, ainda que comprometida, e, por vezes, ela era grosseira com ele para eximir sua culpa pela reciprocidade. Enfim.
O seguinte trecho é desta resenha super detalhada, que ora tomo licença para copypaste:
 
Ambos se comovem, choram, se abraçam e se beijam. O mais sublime e apaixonado beijo da história da literatura, mas em seguida Charlotte repele-o, dizendo que nunca mais quer vê-lo. Charlotte (Carlota) sabia que amava Werther, mas também sabia que este amor era impossível. Assim, ela pediu para nunca mais vê-lo e ele assentiu.
Assim, depois de mais alguns escritos em que cogitava o suicídio constantemente, é tomada a decisão. Eis abaixo uma das últimas coisas que deixou à tinta:


A morte de Werther, quadro de Baude.
(...) Que me importa que Albert seja seu marido? Seu marido! ... O casamento só vale para este mundo, e é só neste mundo que cometo um pecado, amando-a, desejando arrancá-la dos braços dele para estreitá-la nos meus! Um pecado! Que seja!! Dele vou me punir. Saboreei esse pecado em toda a sua voluptuosidade celestial, meu coração sorveu nele a força e o bálsamo da vida. Desde aquele momento, você é minha, minha, Lotte! Parto antes. Vou ter com meu Pai, o seu Pai! Dir-lhe-ei as minhas penas e ele me consolará ate a sua chegada. Então, correrei ao seu encontro, abraçar-te-ei, e ficaremos, em face do Eterno, unidos por um abraço eterno. (...)
O escritor Goethe, ao morrer, profere uma famosa frase: ''deixem entrar a luz''.
Bom conselho, não?!

E para fechar uma resenha incompleta, pois, a meu ver, senti não ter alcançado a profundidade que a obra possui, despeço-me nas palavras de Ítalo Calvino:
 ''Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer."

Um beijo bom,
Camilla.
obs: Eis um artigo bem jóia com pontuações sobre a obra do Goethe: ''As razões de Werther''. Vale a pena conferir, mas só depois de ler o livro para não comprometer a interpretação.

UPDATE 25/nov!!! NÃO DEIXEM DE LER esse texto do site Obvius: Ainda sentimos os sofrimentos do jovem Werther?

5 comentários:

Vitor E. disse...

Casamento, vida, família, amor, honra, princípios.....afinal, do que fala Werther??? Quem pra ti, camilla, te parece que é o Werther de Goethe? Você sabe que quando me caiu em mãos este livrinho, foi em meados de 2007...período conturbado, fim de um relacionamento na época, e alguém me emprestou para dar uma olhada.....tá, mas, é um livro para um leitor mais atento, pois se não lermos nas profundezas das entrelinhas corremos o risco de achá-lo banal, e não o é! Acho que a principal constatação minha na época era que esse "jovem" Werther, não tinha sofrimentos condizentes com sua idade! ele versava fundo, investigou sua alma! È um livro bonito para pessoas que estão equilibradas......mas para quem ainda sofria por amor, como eu, na época, foi um mergulho mais profundo.....a sensibilidade dele me fascina! Charlotte, me parece, não estava a altura daquele tipo de amor! As mulheres, até hoje, não sabem lidar com a sensibilidade amorosa dos homens......a maior virtude, talvez, de Werther esteja naquilo que viam como fragilidade na época! Repito: Mulheres, em geral, não sabem lidar com as fragilidades masculinas! assuste-as, talvez! Mas, claro, como é um livro clássico, se eu relesse hoje, talvez tivesse outra leitura da obra! Falo de um época e de contexto pessoal.

Hanna S. disse...

Werther tá na minha lista pra ler (tô só terminando Os Irmãos Karamázov), por isso não li todas as partes, mas é uma boa resenha. Fiquei feliz de ver uma recente para um livro que estou prestes a ler. Vou salvar o link recomendado para depois, quando terminar.
Eu li as primeiras páginas, e já senti uma 'amizade' com o Werther, sempre me apego a esse tipo de personagem, por ser tão solitária e 'diferente' quanto eles. Esse também vai ser meu primeiro Goethe, então vamos ver.

Fiquei feliz de ter achado seu blog! Já tô anotando todos os livros que eu ainda não li num bloquinho pra procurar em sebos. A internet anda segurando meu tempo para leitura, mas vou ver se arrumo um jeito. :D

Lu Tazinazzo disse...

Oi Camila, nossa, estou tão atrapalhada que nem consegui responder seu e-mail direito e só agora consegui passar por aqui. Adorei sua mensagem, sua fofa!

E que blog incrível! Seu texto é maravilhoso, você só lê coisas de gente grande! Adorei e vou passar aqui mais vezes!

Grande beijo

Lu Tazinazzo
http://www.aceitaumleite.com/

Ana Luiza Ferreira disse...

Olá Camila, boa noite!
Estou comentando só para poder elogiar seu blog/site; achei encantador, de uma delicadeza brilhante. A leitura do mesmo é feita com a gentileza de quem cheira uma flor, devido as suas simples porém inteligentíssimas palavras. Parabéns, achei uma graça.

Anônimo disse...

Olá, estou precisando de uma parte do livro onde mostra que Wherther "morre por ver Charlotte dando pão as criançinhas".
Estou estudando o poema É ela é ela é ela de Álvares de Azevedo , onde é citado este trecho.
Preciso da ajuda. Desde já adradeço.

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