sexta-feira, 7 de setembro de 2012

CARPINTEIROS, LEVANTEM BEM ALTO A CUMEEIRA & SEYMOUR, UMA APRESENTAÇÃO, de J. D. Salinger

Desde que li ´´O apanhador no campo de centeio`` de J. D. Salinger, em 2011, criei mais um escudo literário: não-faça-expectativas-com-best-sellers (já tinha os escudos não-faça-expectativa-com-títulos-bonitinhos, não-subestime-autores-criticados e não-abandone-livros-chatos) porque tudo pode nos surpreender negativa ou positivamente!
É. Sinto informar, caros amigos, mas O apanhador não é TUDO aquilo que TODOS dizem – outra hora farei um post digno da sua fama e aí poderão tirar suas conclusões. 
Mas falei nele agora pra dizer que, segurando um dos escudos – e também para demonstrar como sou teimosa/persistente –, a minha leitura de setembro foi mais uma obra de Jerome David Salinger (precisava tirar a prova se o cara é bom mesmo ou não passava de uma lenda hehe)!

Raras vezes fui ao Carrefour, mas nesse dia entrei na Livraria anexa ao mercado para comprar papéis e envelopes. Dei de cara com aquela torre da Editora L&PM cheia de livros pockets e na altura do meu nariz estava um título do Salinger. TIVE QUE comprar!
Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira & Seymour, uma apresentação.

São duas novelas que formam um livro. 
Na primeira, Buddy Glass narra o escândalo causado pelo sumiço de seu irmão Seymour Glass no dia do próprio casamento: ´´ele amava demais, era feliz demais para se casar``. Na segunda, Buddy tenta esboçar um retrato do irmão, tido como prodígio de programas radiofônicos, poeta precoce, voluntário na Segunda Guerra, ...

Seymour e Buddy são irmãos da grande família GLASS - principal contribuição pro mundo que o Salinger deixou, sendo frequente objeto de estudiosos da literatura pela profundidade dos membros/personagens!

Acho ousadia que com rasos conhecimentos sobre narrativa e linguagem eu vá conseguir expor minimamente o MUITO que representa – e já se estudou sobre – Seymour e sua personalidade (esquizóide?!), mas ´´Pensar é um ato; sentir é um fato``, dizia Clarice.. 
Então, o fato é que Seymour nos intriga e provoca, mesmo sem falar nada. Ele é e não é. O que sabemos da sua psiqué é resultado do filtro da opinião dos outros personagens, PRINCIPALMENTE de Buddy que, com nuances de obsessão, coloca o irmão num pedestal ao mesmo tempo em que deixa escapar a insatisfação de tê-lo como parâmetro de comparação na família!
Quem tem a felicidade de ter irmãos sabe o significado da palavra EXEMPLO e, tanto faz ser o caçula ou o mais velho, reconhece que são os protótipos de seres humanos mais próximos que temos na vida, e que caberá aos pais a sutileza de tratar os desiguais de maneira desigual (Princípio da isonomia) e formar uma família de comercial de margarina (#ounão). Salinger explora isso com maestria!
[Comecei a escrever esse post na noite de 6 de setembro, coincidentemente um dia depois da enxurrada de postagens no Facebook relativas ao DIA DO IRMÃO, que eu desconhecia até ver a emocionada homenagem da minha irmã mais nova. S2
Também te amo, Mika! :*
Obs: Como é prático ter data especial pra dizer aquilo que deveríamos dizer diariamente, né? hehe] 

Buddy é um narrador-personagem que usa da escrita e descrição pormenorizada para eternizar seu amor e admiração pelo irmão – ´´Embora nunca tenha escrito um único poema, ele (Seymour) trasmitia poesia por todos os poros`` –  justificando que este cometeu suicídio pelo sofrimento decorrente da infância não vivida e/ou traumas pós-guerra... 
MAS REPAREM que Buddy TAMBÉM compartilhou da mesma infância não vivida (porque eram astros de um programa infantil) e TAMBÉM foi para a guerra!!!
Ou seja, .............................! (completem o tracejado com suas conclusões depois de lerem o livro).
: )
Para Alfredo Monte (blog Monte de Leituras), ´´O texto é sempre muito mais interessante ao mostrar o universo neurótico e mundano da classe média alta de Nova York e mesmo os problemas pessoais do próprio Buddy do que quando envereda para a santificação da figura de Seymour, ...``. Na minha opinião, o texto todo é interessante. Amei o preciosismo da narrativa envolvente, a mágica absurda de dizer MUITO nas misteriosas e irônicas entrelinhas, e aquele jeitinho machadiano (amo!) de conversar com o leitor, insinuar que a gente possa estar cansado, provocar para que larguemos o livro antes que seja tarde... 

Um pouco mais de quem já estudou o Salinger... a Juliana Cunha disse: ´´Buddy Glass é o personagem que mais parece ter a voz de Salinger, embora essas aproximações entre autor e personagem sempre sejam (mesmo agora, definitivamente o é) uma coisa extremamente forçosa e forçada. Mas, faça-me uma garapa! Se não pudermos forçar um tiquinho só as coisas para defendermos uma tese, se os fatos não forem feitos de algum material menos obtuso que diamante, então as teses jamais serão defendidas. E eu defendo que Holden Caulfield e Buddy Glass sejam as duas ocasiões em que o reservadíssimo Salinger se deixa entrever entre uma linha e outra. Os dois personagens parecem-se muito com o pouco que conhecemos do Salinger. São irônicos, auto-irônicos, mentirosos, sensíveis e eremitas (Holden diz querer morar numa cabana no meio do mato. Buddy de fato mora numa cabana no meio do mato). E, principalmente, os dois são obcecados pelo fantasma de um irmão morto (Allie para Holden e Seymour para Buddy).``

Um aparte:
Na mesma época de O apanhador no campo de centeio, Salinger escreveu alguns contos extraordinários, reunidos em Nove estórias. Então, pra ficar bem redonda essa dica literária de setembro, acho válido te direcionar para o texto em que a Juliana Cunha faz uma análise da primeira e mais impactante das Nove estórias: ´´Um dia especial para os peixes-banana``. (Os comentários no post também são ótimos!) 
E para ficar melhor ainda, leia a íntegra do conto e descubra como foi o dia do suicídio do Seymour! 
Considero que ter lido esse livro agora foi uma baita coincidência, porque há pouco é que fui ver o post da Juliana. De certa forma adentrei na história da família Glass com conhecimento de causa, motivo pelo qual eu já sabia desde o início do livro o porquê do sumiço do noivo Seymour! :D 

Só pra dar uma palinha, talvez cumpra colar aqui um trecho do livro onde tem uma cartinha do Seymour para Buddy:
(...) Uma das poucas coisas no mundo, afora o próprio mundo, que ainda conseguem me entristecer é a impressão de que você se aborrece quando a Boo Boo e o Walt dizem que está falando alguma coisa como eu falaria. Você parece tomar isso como uma acusação de plágio, uma censura à sua individualidade. O quê que há de errado se às vezes um de nós fala como o outro? A membrana que nos separa é tão fina! Será tão importante que cada um de nós jamais se esqueça quem é quem? (...) Não será que para nós a individualidade de cada um começa justo no ponto em que reconhecemos quão extraordinariamente profundos são os nossos vínculos e aceitamos a inevitabilidade de tomar emprestado as piadas, os talentos e as besteiras uns dos outros? (...)

É nessas horas – digo livros – que a gente se dá ao luxo de mudar de opinião, deixando autores nos surpreenderem positivamente para demonstrar que na vida são INÚMEROS e INCONTÁVEIS os pontos de vista.

J. D. Salinger, falecido em 2010, te dedico!


Um beijo bom, Camilla.


4 comentários:

Nat King Cole disse...

"não-abandone-livros-chato..porque tudo pode nos surpreender negativa ou positivamente!"

*** Precioso Post! Uma vez vi um documentário sobre o SALINGER que relata que ele era reservado, misterioso e fleumático! Tipo um João Gilberto da Bossa Nova, sabe? Nunca li nada dele, mas sem dúvida, que muitas vezes, a vida eremítica do autor nos impulsiona até seus escritos! Valeu a dica, Camilla!

*** Tive a curiosidade, e a pretensão, de ler (e dar uns pitacos heheh) em TODAS as suas postagens até aqui! Este deleite me levou uma semana exata devido a contingência de tempo, mas estou agraciado! Ganhaste um leitor......continue!

Parabéns pela iniciativa! Enriqueceste meu mundo literário durante 7 dias!

Bjs, DE COLORES! Paz e Bem!

http://www.youtube.com/watch?v=1ACSYYD_zpE

Nat King Cole disse...

Se me permite, Fica minha dica: "Um Dia", de David Nicholls! Lembrando que este livro virou um filme! Vale a pena ver o filme! Fantástico!

http://www.youtube.com/watch?v=Noshw3upFw4

Camilla Caetano disse...

:D
Se eu te disser que esse livro do Nicholls já está na minha lista...
mas reluto em ler romances, bem como filmes de romance. hehehe

Vou pensar no caso!

Anônimo disse...

Oi, acho q se leres a biografia do Salinger entendera como O Apanhador mudou a cultura literaria pós guerra americana. E como talvez depois de tantas imitações leste o original e não te surpreendestes. Mas historicamente é um marco. Forte abraço!

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