sexta-feira, 18 de maio de 2012

FLASH BACK: Janeiro/2011: MEU PÉ DE LARANJA LIMA, José Mauro de Vasconcelos

Li Meu pé de laranja lima, pela primeira vez, quando eu era mocinhaprovavelmente por indicação da Márcia Estivallet, professora de português da época. Recordo que fiz xérox do livro e com o passar dos anos essa minha cópia se perdeu. 
Assim, em janeiro de 2011 minha ex-colega Ana Paula Bordin (minha parceira de gabinete forever!) emprestou sua edição (aquela que vende na revistinha do Avon).


Tenho bem presente na memória que chorei bastante com a história, motivo pelo qual tive interesse em revisitá-la e ter novas impressões agora adulta.

José Mauro de Vasconcelos (1920-1984) publicou este título em 1968. Eu gostei muito de conhecer sua biografia, pois exalta detalhes que percebemos nas linhas e entrelinhas do texto, tal como sua infância no nordeste e seu gosto por Graciliano Ramos e José Lins do Rego! José Mauro é criador de mundos imaginários e histórias fantásticas, mas com os dois pés na realidade, neste livro, traz à tona a violência infantil. Com a narração de uma criança, expõe a debilidade social de uma família que (talvez) o trata como bode expiatório dos dilemas do álcool e desemprego.

O protagonista do livro é Zezé, menino de 5 anos de idade, de família pobre e muito numerosa. Seu pai era desempregado e a mãe trabalhava numa fábrica. Por conta dos muitos filhos e da ausência da genitora em tempo integral no lar, uns irmãos ajudavam na criação dos outros. A irmã que tinha cuidado mais direto com ele era Glória, a ´´Godóia``. Por sua vez, Zezé tomava conta de Luís. Impossível não se emocionar com a vidinha do Zezé. 
No quintal da casa, Zezé faz amizade com um pé de laranja lima que batiza de Minguinho ou Xururuca! Estabelece uma relação íntima com a pequena árvore e a eleva como refúgio para todos seus sonhos, anseios e sofrimentos infantis. (Aqui cabe linkar o meu post sobre O Diário de Anne Frank, porque também - no sofrimento - elege um ser inanimado (o diário) como seu confidente!)
Pela família, o garotinho carinhoso (sim!) é chamado de afilhado do Diabo, pois faz muita arte (tem cada descrição mirabolante, tipo: fazer cobras de meia para assustar as pessoas, ou pingar cera de vela na calçada para assistir a lindos tombos.. heheh). Em contrapartida, tem bom rendimento na escola – um bom leitureiro, conforme a profe –, é inteligente e perspicaz e aprende tudo rapidamente.

´´Consciente`` e melancólico, Zezé dizia:
Eu sou arteiro, sou levado, muito peralta por isto vivo apanhando da malvada Jandira, aquela solteirona. Lá em casa ninguém gosta de mim só a Godoia, o papai depois que perdeu seu emprego na fábrica vive bêbedo, a mamãe sai de madrugada para trabalhar, coitada, para sustentar a casa. Meu irmão acima de mim o Totó só quer saber de me chutar, tem o Luizinho muito pequeno este eu tenho de cuidar, os outros irmãos nem lembram que eu existo. 

Guri muito arteiro, sempre levava bronca por pegar carona na traseira do carro do Portuga – apelido do vizinho português Manoel Valadares – e, por isso, jurou que quando crescesse iria matá-lo. Porém, eles acabam virando amigos e Portuga supre sua carência de afeto familiar levando-o para passear no seu carrão, fazendo piquiniques e pescarias...
Tornam-se confidentes:

- Mas ele me bateu tanto, tanto, Portuga. Não faz mal...
Funguei compridamente.
– Não faz mal, eu vou matar ele.
- Que é isso menino, matares teu pai?
- Vou sim. Eu já até que comecei. Matar não quer dizer a gente pegar revolver de Buck Jones e fazer bum! Não é isso. A gente mata no coração.
Vai deixando de querer bem. E um dia a pessoa morreu.

É capaz de fazer a gente largar o livro para voltar depois, porque causa tristeza. Além das reações de raiva e indignação quando - sem sentido (porque canta uma música, v. g.) – o  Zezé é surrado freneticamente pelo pai ou irmã.
Um dos pontos marcantes é a iminência de cortarem sua árvore-amigo para fazerem uma construção... Ok, sem spoiler! Fico por aqui e não entrarei em mais detalhes do desfecho da história, até porque certamente terei amigos que, como eu, sentirão saudade do Zezé e irão  atrás do livrinho!! Reler um livro que se leu há quase vinte anos, cujo tema permanece atual, é muito gostoso, ainda que dê um aperto no peito. É como ver Super Xuxa contra o baixo astral ou Os Trapalhões ou ouvir Balão Mágico e sentir aquela cócega nostálgica de uma infância bem vivida. 

(...) Mas logo, logo a fada da inocência passou voando numa nuvem branca que agitou as folhas das árvores, os capinzais do valão e as folhas de Xururuca. 
Um sorriso iluminou meu rostinho maltratado.
-Foi você quem fez isso, Minguinho?-Eu não.-Ah que beleza, então é o tempo do vento que está chegando. (...)

Meu pé de laranja lima não deixa lição de moral senão um incômodo no nosso coração. 
No mais, observei que há críticas da triste história de Zezé, no sentido de que, por falar com uma árvore, retrataria uma esquizofrenia infantil. Ou que a amizade com Portuga seria uma pedofilia camuflada, etc etc. Prefiro não dar asa às problemáticas tãããão implícitas assim, e, sim, focar na mensagem de busca de conforto no sofrimento; no sentimento de culpa de uma criança que 'apanhando parece sentir-se merecedora' (!); e nas mágoas e cicatrizes que fazem morada nos nossos corações quando sofremos perdas – seja de uma planta ou uma pessoa.

Essa é uma leitura para a vida. Recomendo.

Um beijo bom,
Camilla.

2 comentários:

Nat King Cole disse...

Aonde estaria Zezé hoje? Que tipo de adulto ele seria? será que veio a crescer? E o Pé de Laranja Lima? Não te parece semelhante a rosa em o Pequeno Príncipe? Seria Zezé um "Príncipe Nordestino"? Quanto a mim, Zezé me lembrou Tom Sawyer.....

Anônimo disse...

Meldelss...Zezé era o escritor José Mauro qdo pequeno e nos deixou, falecendo em 1984. O Zezé cresceu e, apesar de todas as adversidades, problematicas vividas, superou e se tornou alguem de bem, especial!

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