domingo, 29 de abril de 2012

QUAL É A TUA OBRA?, Mario Sergio Cortella

Quem tem vinte e poucos quase trinta, provavelmente está na fase de consolidação do seu papel no universo. Perguntas sobre que sou? Para que sirvo? Para onde vou? são bem comuns e, ao que parece, a grande maioria responde confirmando o caminho escolhido aos 16 anos. 
É preciso coragem e ousadia para, dentro do processo de autoconhecimento, parar, refletir e, quiçá, mudar de ideia e aventurar-se noutras bandas. 
Conheço pessoas que fizeram isso e se dizem mais felizes agora. Pois bem. 
Meu amigo cabeção (cursando pós-doc na área de pesquisas da cura do câncer – me perdoa se eu simplifiquei?), Rafael Zanin, indicou o livro do Mario Sergio Cortella, Qual é a tua obra? que tem a ver com aquela questão de “seu papel no universo”.
Em só 141 páginas, o filósofo Mario Sergio Cortella apresenta de forma sistêmica inquietações (não respostas!) para a pergunta Você se sente confortável e satisfeito quando pensa na sua obra? Ou se sente inquieto e um tanto quanto desconfortável? 


Quem escreve o prefácio é sua filha Ana Carolina Krämer, advogada criminalista, que ao final responde que a nossa obra é o futuro. E suas indagações foram para a contracapa: qual é a minha obra? É ser reconhecida? Tornar-me uma Rocky Balboa? Aprender a aprender? Saber o significado da minha poiesis? Construir uma nova competência? Distinguir o líder do chefe? Enfrentar a jornada do herói? Saber a diferença entre erro e negligência? Saber que não sei? Ser humilde? Saber aproveitar as oportunidades? Enfrentar o medo da mudança? Saber o tamanho do que tenho dentro do planeta? Saber o que a satisfação faz com a gente? Saber a velocidade das mudanças? Combater o bom combate?
É bem interessante se deparar com todas essas perguntas nebulosas que, mesmo para quem é estável, feliz e satisfeito com sua vida de trabalhador-assalariado, impõem umas quantas pulgas atrás das duas orelhas. Num mundo veloz e competitivo não sobra espaço para dúvidas. Ou sobra?

Senão vejamos... o autor inicia tratando de – profundo dilema – enxergar um significado maior na vida, aproximando a espiritualidade do trabalho. Dizendo que espiritualidade é a capacidade de olhar que as coisas não são um fim em si mesmas (...) E, assim, retrata um pouco da ideia de trabalho x prazer, ou se ela deve ser trabalho + prazer. Temos carência profunda e necessidade urgente de a vida ser muito mais a realização de uma obra do que de um fardo que se carrega no dia a dia. 
Com um apanhado histórico, o filósofo vai às origens da palavra trabalho, sugerindo que a ideia de trabalho como castigo precisa ser substituída pelo conceito de realizar uma obra (que os gregos chamavam de poiesis). Poiesis = minha obra, aquilo que faço, que construo, em que me vejo. A minha criação, na qual crio a mim mesmo na medida em que crio no mundo. Por isso aquela velha história de que para ser feliz precisamos plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho. Tudo são CRIAÇÕES, que trazem o LEGADO no seu âmago, né? Então é mais ou menos isso: nós buscamos ter qualidade de vida (enquanto vivos!), mas temos no nosso íntimo a vontade de nunca sermos esquecidos! :)

Ele falou que um dos traumas mais fortes que se tem atualmente é o de não ter reconhecimento: Todas as vezes que aquilo que você faz não permite que você se reconheça, seu trabalho se torna estranho a você. (...) Não vou falar capítulo por capítulo, porque como o livro é fininho, é justo que eu não faça spoilers e sua curiosidade faça com que o adquira imediatamente! Heheh
No mais, aborda a infame pergunta “sabe com quem está falando”, trazendo à tona a humildade como chave... e que a física quântica também ajuda: 
Você é um entre 6,4 bilhões de indivíduos, pertencente a uma única espécie, entre outras três milhões de espécies classificadas, que vive num planetinha, que gira em torno de uma estrelinha, que é uma entre 100 bilhões de estrelas que compõem uma galáxia, que é uma entre outras 200 bilhões de galáxias num dos universos possíveis e que vai desaparecer.

O cara é muuuuito bom mesmo. Eu tenho uma sorte danada de sempre me indicarem títulos incríveis, que passo a amar e tomar como “diretrizes” para alcançar uma sabedoria razoável aos 50 anos e não encasquetar com coisas pequenas e materiais que não sejam amor, saúde, paz e netos!!

Além disso, só vou citar algumas frases phoda que ao longo dos capítulos conquistam nosso carisma (e não são necessariamente clichês, mas, sim, conclusões de um estudioso e bem sucedido filósofo do nosso tempo): Cuidado com gente cheia de certezas (...); Arrogância é um perigo porque ela altera inclusive a nossa capacidade de aprender com o outro, de entrar em sintonia (...); Ninguém fica num local apenas por conta do salário, mas sua permanência é também condicionada pela capacidade de enxergar a finalidade positiva do que faz, do reconhecimento do que obtém, do bem-estar que sente quando seu trabalho é valorizado e se percebe ali a possibilidade de futuro conjunto (...); Se eu sei que preciso passar por algumas atribulações, mas elas são a obtenção do positivo, farei com prazer e alegria. Se eu não conseguir entender por que estou fazendo aquilo e ficar em lamúria de forma contínua, aí o que vou obter é mero sofrimento (...); cautela imobilizadora x ímpeto inconsequente. 

E, para não cansar o meu leitor (olha que metida!) colaciono só mais essa: Reconhecer significa conhecer a si mesmo. Eu preciso me ver naquilo que faço. Do contrário, não me realizo. Se não me realizo – usando a palavra em duplo sentido -, não me torno real ou, se eu usar o termo em inglês, to realize, não me percebo. E se não me percebo no que faço, eu me sinto infeliz.

Dá vontade de colacionar inúmeras passagens para dar mais credibilidade à minha leitura de março, mas me limito a elencar os demais temas: ética, aética, integridade, arte de liderar, alteridade,... 
A leitura é bem gostosa e fluida, abre a mente para alguns pontos não antes considerados, convida a um refletir mais profundo sobre a utilidade que temos no nosso trabalho e o quanto a ideia de pertencimento é fundamental para ser feliz.

Baratim e finim, só não lê quem não quer.

Fechando com a frase de François Rabelais (escritor de Gargântua, Pantagruel, no século XVI): “Conheço muitos que não puderam quando deviam porque não quiseram quando podiam”.

Um beijo bom,
Camilla.

2 comentários:

Nat King Cole disse...

Cheguei até seu blog através deste post sobre o Cortella...numa pesquisa que tava fazendo de filosofia! Vi várias entrevistas dele na mídia, mas nunca tinha lido nada dele! Valeu pelo dica, bem interessante as questões abordadas! bjs

Nat King Cole disse...
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